Você ficaria surpreso com a quantidade de profissionais que não fazem o dever de casa (nem verificam antecedentes)
A Netflix lançou em 6 de Fevereiro a série Vinagre de Maçã (Apple Cider Vinegar), que narra de forma ficcionalizada os acontecimentos verídicos sobre a ascensão e queda de Belle Gibson, a influencer que enganou milhares de pessoas por anos, alegando que tinha câncer cerebral e vendendo cura com base em alimentação.
Depois de obras como The Act, A Menina que Matou os Pais, Inventando Anna, vale à pena assistir a mais uma obra sobre um caso criminal? É possível tirar qualquer coisa dessa narrativa, que não seja o entretenimento mórbido e sensacionalista dos “true crimes“?
Vinagre de Maçã é dirigida por e estrelada por Kaitlyn Dever. Também conta com Alycia Debnam-Carey, Tilda Cobham-Hervey, Aisha Dee, Ashley Zukerman e Mark Coles no elenco principal.
A série é uma narrativa nauseante. A direção e jogo de câmera consegue um feito intenso presente em A Substância, The Act, Titanic e Madame Du Barry: uma sensação de desconforto, uma claustrofobia. Especialmente no caso de A Substância, em que alguns takes são gravados em ângulos esquisitos e distorcidos.
Por vezes, a trilha sonora parece um pouco impositiva, como se quisesse ter certeza que você sabe que aquele momento é triste. Talvez seja até uma escolha de estilo, para incentivar a atmosfera de manipulação. Por outro lado, me tirou um pouco da história. Em outros momentos, vale comentar, souberam brincar com mudanças rápidas na trilha e fizeram quebra de expectativa com interrupções súbitas, em alguns momentos de tensão.
Algumas escolhas de roteiro são um pouco cansativas, como iniciar todos os episódios com o mesmo aviso de que a história é baseada em fatos reais, que por sua vez foram forjados. É até engraçadinho na primeira vez, mas logo se torna vazio e meio irritante. O mesmo vale para algumas das quebras de 4° parede.
Um outro fator que te tira um pouco da história são algumas cenas que, de tão absurdas, se tornam difíceis de assistir. Em parte, acho que este é o ponto. Mas em algumas delas parecem caricatas até demais (como a cena da Belle gritando histericamente em um avião, só para ser o gancho do episódio). Embora a personalidade dela seja meio errática e ela tenha momentos de descontrole, episódios extremos como este ainda assim ficam deslocados.
Alguns acontecimentos são abandonados pela metade, como a história do Hek e a charlatã do Instituto Hirsch. Não me refiro nem a um senso de justiça (por motivos que comentarei mais adiante), mas no sentido de um desfecho, mesmo. No terceiro ato da narrativa, eles simplesmente desaparecem.
Um ponto que me incomodou um pouco foi a falta de clareza nos comportamentos de Belle, especialmente nos últimos episódios. Sou a favor de nuances e filmes que não mastigam todas as cenas, mas enquanto alguns fatos eram visivelmente fruto da imaginação de Belle (como a ajuda para escrever sua mensagem de ‘desculpas’), outros são um mistério. Por exemplo, a alergia que ela acabou desenvolvendo. Era real? Imaginária? Nunca saberemos, porque pouco depois sua pele está normal e o acontecido nunca é mencionado.
O final é anti-climático e meio decepcionante. Esta não é uma série em que você vá sentir algum alívio depois de toda raiva que passa assistindo (e querendo fechar o computador de tanta agonia). Apesar de decepcionante, do ponto de vista narrativo, acredito que era o único final possível. Afinal… este caso não “terminou”.
No geral, a série é bem feita e com atuações muito boas. Eu raramente vejo motivos para criar uma obra baseada em casos criminais, mesmo as que não envolvem crimes violentos, como Inventando Anna (além de lucros às custas do terror e do fascínio sobre crimes), mas Vinagre de Maçã faz comentários a temas pertinentes como a relação com as redes sociais, a comparação e competição incessante, as relações parassociais que desenvolvemos com celebridades e influencers; a necessidade de validação online, o vício em redes sociais; a desinformação, fraudes às custas de pessoas doentes e em momentos de vulnerabilidade (mesmo com ‘boas intenções’), e por aí vai.
Além da relação com a tecnologia e seus desdobramentos, Vinagre de Maçã é eletrizante nos contrapontos dos relacionamentos (Justin/Lucy e Milla/Arlo/Tamara/Joe). Então sim, a série vale à pena.
