História interessante perde potencial através de escolhas amadoras
Filmes baseados em fatos já chamam a nossa atenção pelo simples fato de explorar a vida real. A realidade pode parecer uma verdadeira obra prima de storytelling algumas vezes e quando são interpretadas para os meios de narrativa, podem dar voz à acontecimentos incríveis.
Porém, mesmo baseado em fatos, Quebrando Regras parece não dar o peso necessário aos acontecimentos da própria realidade. A história narra a aventura corajosa de Roya Maahboob que, ao conhecer o potencial da tecnologia na vida das pessoas e em como as mulheres afegãs são privadas do contato com os hardwares e softwares, decide lutar pelos direitos femininos ao acesso à educação neste aspecto – e consequentemente nos demais, em seu país. E, posteriormente, decidindo inscrever talentos intelectuais femininos em competições internacionais de robótica.
Com o conhecimento de como a cultura no Afeganistão é sexista e perigosa, os perigos da jornada de Roya estão logo na premissa, reforçados por um prólogo muito tenso. Mas, quando a cena introdutória é inserida na história, conhecemos o maior problema do filme: saídas fáceis a problemas aparentemente intransponíveis.
Se uma arma é apontada para os protagonistas, esta falha. Se Roya quer aprender a usar computadores, existe alguém que pode se beneficiar disso. Se ela quer aulas de computação para mulheres em sua universidade, existem pessoas dispostas a pegar um abaixo assinado. Os parentes das garotas não as deixam participar da competição de robótica? Sem problemas, todas conseguem logo depois a permissão e se apresentam AO MESMO TEMPO para as aulas/treino/confecção de robôs. Uma personagem sofre uma grande perda? Na cena seguinte ela está totalmente motivada a fazer o que deve ser feito e então está comemorando. Problemas para conseguir as passagens para um vôo? Basta pedir às pessoas na fila, elas estarão dispostas a dar a própria passagem. Sem grana pras competições? Há um investidor propenso a ajudar! Você e seus amigos não sabem se tem idade para entrar em um local? Basta um desconhecido ouvir a conversa e dar a resposta necessária. Mas talvez o maior símbolo das conveniências que compensam as inconveniências seja a cena de uma criança que quer assistir uma aula pela janela e coincidentemente está uma caixa no tamanho exato para que ela suba assista às aulas.
As resoluções dos problemas não são necessariamente fáceis em todos os obstáculos, mas sempre parece que o problema atual é resolvido rapidamente com a primeira ação. Agora basta resolver o próximo problema e aí vai. Faltou tato do roteiro para dar tempo para que fossem digeridos os conflitos.
Nem mesmo as passagens de tempo no primeiro ato servem para valorizar a paciência e o esforço que aquelas pessoas tiveram na vida real. Poderia se valorizar o clima de fé e providência divina que a história pedia, mas isso pareceu passar despercebido pelo filme.
E este tempo que poderia dar substância dramática foi usado para mostrar cenas e mais cenas de competições de robótica – reais e fictícias – e discursos sobre a união dos povos nestas competições. É comovente, mas se acontece o tempo todo, perde o peso.
A direção de Bill Gutrentag é funcional e parece se atropelar na correria do roteiro, sendo vítima destes. Ele mal consegue exprimir a reação adequada dos atores, por mais que alguns ali se saiam muito bem. E estrela negativa para outra vítima do roteiro: Niohl Boosheri, que quase sempre parece saber o que dizer no momento certo, mas que parece fazer uma cara de tensa o tempo todo independentemente da situação. Não há carisma alguma nela.
Quebrando Regras, por ser um filme baseado em uma comovente história real, tinha todos os elementos para ser um filme digno de Oscar, mas o amadorismo técnico de bastidores não foi capaz de dar o que a história pedia. E mais parece um filme adolescente da Disney tentando parecer ser uma produção de impacto.
