Homem-Aranha 2 é simplesmente o filme da minha vida. E neste review eu não vou falar apenas sobre porque é o meu preferido, como também porque, analisando friamente, ele é o melhor filme de super-herói de todos os tempos!
Milhões de pessoas do mundo inteiro, assim como eu, são apaixonadas pela trilogia do Homem-Aranha dirigida por Sam Raimi. E eu só fui notar toda essa paixão quando começaram as expectativas sobre o Tobey Maguire voltar a ser o Homem-Aranha em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa.
E o amor que temos por estes filmes é devido a uma combinação de fatores.
Particularmente um dos maiores é que, como boa parte dos filmes do início dos anos 2000, é um filme muito agradável de se assistir. Ele é colorido, iluminado, aberto. Além de ser um filme que lida muito com coisas do cotidiano, sem nunca nos afastar da história, mas se integrando a ela. Vemos os personagens levando o lixo, lavando roupa, comendo cachorro-quente. Os personagens e a cidade tem vida própria. E isso tudo tem sinergia com a história.
E todos sabemos que na vida real é muito mais comum acontecerem coisas ruins do que boas, então ver um personagem se ferrando tanto quanto nós e sendo exemplo de superação no dia-a-dia, é algo que traz muita empatia e identificação. Sem contar, é claro, aquela boa e velha lição de moral. “Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades” não é uma frase de efeito solta no filme. Ela é parte fundamental de toda a trama.
E, bom, um filme de herói não seria filme de herói se não houvessem boas cenas de ação e bons vilões. E isso é o que não falta na trilogia. Destaque para o Duende Verde de Willem Dafoe.
Mas é inegável que enquanto o primeiro filme do Homem-Aranha do Tobey Maguire foi um marco de como um filme de herói pode ser de alto nível, o terceiro foi extremamente mais fraco que os outros dois. Mas o segundo é a produção de herói mais importante de todos os tempos. E, na verdade, a melhor da história. Seguido por Batman – Cavaleiro das Trevas.
O filme começa com a rotina de Peter Parker/Homem-Aranha. Ele é entregador de pizza, continua sendo fotógrafo do Homem-Aranha pro Clarim Diário enquanto o jornal suja a imagem do herói e mal tem tempo de se dedicar à faculdade, por sempre estar atrasado para tudo. Mora numa kitnet mal acabada que compartilha até o banheiro, não consegue pagar suas contas, sua tia está perto de ser despejada, por ser o Homem-Aranha ele não pode ficar com a mulher que ama e seu melhor amigo quer matar o Homem-Aranha por culpá-lo pela morte do seu pai. E ele se sente culpado pela morte do tio e não tem coragem de falar para a tia que no dia da morte dele, este não foi levá-lo para estudar, mas sim para ganhar dinheiro de forma estúpida para comprar um carro e impressionar a Mary Jane. Tudo isso e ainda tem que ser o Homem-Aranha combatendo o crime. Como um cara assim consegue ter sono de qualidade e comer bem? A resposta é: não consegue!
Se você como eu não nasceu num berço de ouro, todas essas situações da vida adulta causam identificação imediatamente. E o fato do protagonista ser ético apesar de tudo, é um efeito que causa empatia e admiração. Além de oferecer um panorama de como está a vida dele desde o fim do primeiro filme até agora.
E por mais que ele esteja firme em suas convicções adquiridas no primeiro filme, principalmente por causa de Tio Ben, ele não consegue deixar de pensar em como sua vida estaria menos pior caso não fosse o Homem-Aranha. E talvez o principal fator nesta emoção seja Mary Jane. Por mais pobre que ele seja, Mary Jane está disposta a ficar com ele (mesmo sem saber que ele é o Homem-Aranha). E Peter, que sempre sonhou em tê-la, é obrigado a abrir mão disso pela sua responsabilidade como Homem-Aranha.
E toda essa carga emocional mexe com o corpo dele fisiologicamente e ele começa a ter bloqueio nos poderes, como se já não tivesse problemas o suficiente. Então começa a pensar que talvez, devido ao seu emocional, seu corpo esteja expulsando os próprios poderes, já que eles são a causa maior de seus problemas.
Então Peter Parker decide não ser mais o Homem-Aranha! E quem pode culpá-lo? Quando protagonistas decidem tomar uma decisão em prol pessoal e não coletivo, nós só o julgamos por 1 – falta de lógica ou 2 – quando aguentaríamos o fardo. Poucas histórias se sustentam com protagonistas que não fazem o sacrifício que nós poderíamos fazer. Principalmente em histórias de herói. E numa referência ao quadrinho Spider-Man: No More, temos um enquadro do Peter deixando o uniforme no lixo, assim como a capa da HQ. Olha o fanservice aí antes mesmo de virar moda!
Eu sou muito fã de cenas que mostram a rotina dos personagens. Desde Rocky, Quebrando Regras e tal. E eu sou muito fã da cena do Peter Parker levando a vida como queria. É agradável, é gostoso de assistir e nem parece que foi dirigido pelo pai do terror Sam Raimi. É sem dúvida a minha parte favorita da trilogia. Principalmente embalada ao som de Raindrops Keep Falling On My Head.
Ele se dedica a tentar correr atrás do prejuízo e ter a Mary Jane, que, por já estar noiva, resiste. E finalmente conta o segredo que envolve a morte de Tio Ben para Tia May que, numa reação muito humana, não reage bem e deixa o sobrinho sozinho.
Porém, aos poucos ele vai se lembrando da falta que o Homem-Aranha faz para a cidade, quando por exemplo testemunha um assalto e decide não intervir ou pelas notícias do jornal em que trabalha que diz que a criminalidade aumentou 75% na cidade e culpa a ausência do Homem-Aranha por isso – embora tentasse antes incriminá-lo a todo custo.
Então ocorre o ponto de virada que faz Peter ter total noção da necessidade de existir o Homem-Aranha. Está havendo um incêndio e um cara diz que tem uma criança presa no quarto andar. E, mesmo sem poderes, Peter decide salvá-la. Com todas as dificuldades que um homem normal teria nesta situação, ele salva a garota. Para logo depois ouvir que um homem morreu no incêndio.
Culpado e confuso, Peter visita sua tia, que está fazendo a mudança com a ajuda de um menino da vizinhança chamado Henry que sabe que o Peter tirava fotos do Aranha e pergunta para onde foi o herói e se ele vai voltar. Peter responde que “não sabe”. E aí então ocorre o melhor discurso motivacional de um filme de herói de todos os tempos.
Mas antes deixe que eu fale do vilão: Dr. Octavius tem um ambicioso projeto – patrocinado pelas Industrias Oscorp, que foi herdada por Harry Osborn após a morte do Duende Norman Osborn – de criar energia renovável para todo o mundo, numa espécie de sol em miniatura. Peter, que está fazendo um trabalho na faculdade sobre Octavius, consegue através de seu melhor amigo Harry a chance de entrevistar o cientista.
Na ocasião, Peter testemunha um cientista brilhante que tem uma vida estável, trabalhando com o que mais ama e casado com a mulher de sua vida. Octavius é o símbolo da vida que Peter Parker sonha em ter. E ainda é um homem bom: diz estar usando sua inteligência para o bem da humanidade. Mas, no dia do teste final do projeto, de mostrá-lo a público, as coisas dão errado, Otto Octavius perde a esposa e ainda acaba sendo controlado mentalmente por um projeto paralelo que são quatro braços metálicos grudados a seu corpo e que eram para ser assistentes manuais de seu projeto de energia. E assim nasce o vilão Dr. Octopus (numa referência ao seu nome de batismo e a quantidade de membros que ele tem), que é influenciado por seus braços metálicos a terminar o seu projeto, custe o que custar.
Vale mencionar a cena do massacre que os braços fazem no hospital enquanto seu dono está desacordado. É puro clichê incrível de terror e Sam Raimi, assim como fez com Duende Verde, relembra porque é um dos pais do terror.
Dado momento Otto tenta roubar um banco para poder pagar por seu projeto. Coincidentemente, Peter está com Tia May no banco tentando fazer um empréstimo. Quando começa o assalto, Peter tem que deixar Tia May sozinha para poder colocar seu uniforme de herói. E, por mais que o filme não deixe explícito, é neste momento que Tia May percebe que seu sobrinho é o Homem-Aranha, já que ele nunca a abandonaria numa situação de perigo. Além do mais, Dr. Octopus sequestra Tia May para afastar a polícia e o Homem-Aranha a resgata. Mas ela nunca diz saber do segredo de Peter, sempre fica nas entrelinhas, em olhares muito significativos.
E, com o conhecimento do segredo de Peter, quando recebe a visita de seu sobrinho heróico, Tia May aproveita para motivá-lo a voltar à vida de herói, mesmo que em detrimento de sua vida particular. “Existem poucos sujeitos que andam nas ruas por aí, salvando idosas como eu. Deus sabe,garotos como o Henry precisam de um herói. Precisam de alguém que os ensine a continuar acreditando no bem. Eu acredito que exista um herói em todos nós. Que nos mantém honestos, nos dá força, nos enobrece. E no fim nos permite morrer com orgulho. Ainda que às vezes tenhamos que ser firmes, e desistimos daquilo que mais queremos. Até de nossos sonhos”. (Talvez tenham pequenos erros na citação, pois estou fazendo de cabeça).
E após tais palavras infalíveis, Peter decide voltar a ser o Homem-Aranha. E começa tentando logo saltar de um prédio para o outro, o que acaba quase matando-o. Seus poderes não voltaram.
Enquanto isso Mary Jane decide dar uma chance a Peter. Afinal, o que ela sentiu ao beijar o Homem-Aranha e o Peter no primeiro filme, é um sentimento que ela não tem ao beijar seu noivo – que, aliás, é um astronauta filho do abusivo e pão-duro chefe do Peter no Clarim Diário.
Mas o timming não poderia ser pior já que Peter Parker está decidido a voltar a ser o Homem-Aranha. E Peter decide dizer a ela, quando se encontram em um café, que eles não podem ficar juntos. E, do nada, numa cena espetacular, um carro voa para dentro da cafeteria, mas graças aos poderes de Peter retornando na hora exata, seu Sentido Aranha impede que o pior aconteça.
É o Dr. Octopus, que decide ir atrás do Homem-Aranha através de seu fotógrafo do jornal. Isso á pedido de Harry que quer trocar o tritium – elemento base do experimento do vilão – por trazer o Homem-Aranha para que ele o mate pessoalmente – já que crê que ele matou seu pai.
Octopus sequestra Mary Jane para que o Homem-Aranha vá atrás dela. E funciona, já que em mais uma cena incrível de transição, o Homem-Aranha chega mais brabo do que nunca para salvar sua amada.
Ocorre uma das melhores cenas de ação da história do cinema num combate de tirar o fôlego entre herói e vilão ao redor de um trem suspenso que cruza a cidade. Por fim, Dr. Octopus quebra o painel de controle do trem e este começa a ir rapidamente em direção ao final dos trilhos para a morte de dezenas de pessoas.
Peter, para parar o trem, se coloca em frente a ele e começa a soltar teias nos prédios ao redor para servir como freio. Num esforço hercúleo, o Homem-Aranha impede que o pior aconteça. Com as forças exauridas, prestes a desmaiar, as pessoas no vagão seguram o herói e o carregam para dentro. Lá, sem máscara, todos vêem quem é o Homem-Aranha e se surpreendem com a juventude de um homem com feitos tão poderosos. E, quanto ele acorda, prometem nunca contar a ninguém quem realmente é o Homem-Aranha.
Mas Dr. Octopus chega reivindicando o herói. O povo se coloca na frente dele, desafiando-o. Previsivelmente com facilidade, Octopus afasta a população. O Homem-Aranha tenta voltar ao combate mas é nocauteado. Toda a construção e execução da sequência do trem tornam, em minha opinião, esta cena a mais emblemática da história do cinema de heróis. Particularmente até mais do que as cenas icônicas de Vingadores: Ultimato. E é seguida de perto pela cena dos três Homens-Aranhas na Estátua da Liberdade em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa.
Octavius entrega o Homem-Aranha a Harry Osborn e vai embora com seu tritium. Harry está a poucos passos de matar o herói com uma faca, mas antes decide tirar sua máscara. E deixa a arma cair ao chão ao ver quem está à sua frente. Peter, que está envolto em arame farpado, se solta facilmente, revelando sua força e que de fato tem poderes. E pergunta a Harry para onde Otto levou Mary Jane.
No covil secreto no porto de Manhattan, Octopus mantém Mary Jane cativa. Mas o Homem-Aranha chega e um novo embate começa. Mary Jane, corajosamente, até tenta dar uma paulada no vilão, mas é afastada facilmente por seus braços mecânicos. Peter sai vencedor, mas ainda há um problema: o mini sol no covil secreto está se auto-sustentando e está atraindo tudo que é metálico para si. E, se continuar assim, em breve vai destruir metade de Nova York.
O Homem-Aranha revela para o Dr. Octopus sua identidade. Lembra-o que ele disse que a inteligência deve ser usada para o bem da humanidade e que os seus braços mecânicos o estavam levando para um caminho que não era para ele. E ainda emendou com o discurso sobre sacrifício que sua Tia May lhe dera.
Com muita força mental, motivado pelas palavras de Peter, Octavius obriga seus braços mecânicos a obedecê-lo. E ainda decide sacrificar sua vida para acabar com seu projeto, afundando o sol no rio.
Como Peter está sem a máscara, Mary Jane descobre que Peter Parker é o Homem-Aranha e ele explica que devido a isso eles não podem ficar juntos. Já que seria demasiado arriscado para ela.
O dia do casamento de Mary Jane chega, mas ela decide deixar seu noivo no altar e corre vestida de noiva até a casa de Peter e diz que está disposta a correr riscos, desde que seja com ele. E assim mocinha e mocinho ficam juntos. E após um beijo apaixonado em sua amada, o Homem-Aranha sai para salvar a cidade novamente.
A produção do filme estava disposta a superar o primeiro filme em tudo, e de fato conseguiu. Teve atributos que nunca nenhum outro filme de herói já conseguiu ter. Logrou êxito em cada nuance apresentada: roteiro abrangente, mas bem amarrado, efeitos especiais que funcionam mais que muitos filmes de hoje em dia, atuações na medida e trilha sonora tão marcante quanto do primeiro filme. Homem-Aranha 2 é um filme com propósito, intenção e paixão. E por estes motivos é o melhor filme de super-herói de todos os tempos e um marco na história do cinema de heróis e do cinema como um todo.
