Filme escancara todos os problemas (e potenciais) da indústria cinematográfica brasileira.
O cinema brasileiro sofre de um problema crônico: todos os recursos direcionados à indústria se esfarelam em pequenas produções altamente subjetivas e autorais ao invés de se concentrarem em filmes com grande potencial de retorno financeiro.
E com Lispectorante não foi diferente. O filme tem excelentes méritos técnicos: Direção apurada, fotografia inspirada e até certos efeitos visuais de muito bom gosto. O problema é muito mais “existencial”.
O argumento é simples: Glória Hartman é uma mulher de meia idade que após um divórcio, passa por uma crise existencial e financeira e volta para o lugar onde nasceu: Recife. Lá ela se reconecta com seu lado artístico numa ligação misteriosa com o legado de Clarice Lispector enquanto se envolve em um romance com Guitar (Pedro Wagner), um hippie que literalmente vive de “vender sua arte”.
E numa espécie de crise de meia idade, ela aproveita este período confuso para voltar a fazer artes plásticas e conhecer pessoas novas, enquanto seu primo parece querer prejudicá-la financeiramente. Bom, essa história não tem nada demais. A relação quase mística com Clarice Lispector poderia ser um ponto focal de uma amálgama muito interessante, mas no fim é apenas um floreio para um roteiro que ao tentar parecer “poético”, ficou às raias do ridículo.
Lispectorante é assumidamente autoral, mas não sai disso. Uma profusão de cenas que mais parecem os pensamentos relativos de um roteirista que não fez questão de que fosse entendido, mas que queria ser sentido e, infelizmente, parece ter falhado em ambos. O filme não tem uma cadeia lógica ou interessante de acontecimentos. Pede que o espectador entenda as emoções da personagem sem que ela fale à respeito, mas os demais personagens explicam a história de forma expositiva, gerando uma tremenda falta de harmonia.
A história até mesmo cria cenas que parecem se passar “dentro” da cabeça de Glória que além de não fazerem sentido, não levam à lugar nenhum, nem ao menos criam curiosidade já que não parecem ter peso algum nos acontecimentos “externos”. Não há uma áurea de mistério ao redor da presença espectral de Clarice Lispector além do que tentar prometer ser mais interessante do que é. E isso fica evidente até mesmo no título, que nem ao menos se justifica.

Como dito anteriormente, o filme é tecnicamente surpreendente. Até mesmo nas atuações, que detém uma verdade cênica que fez o roteiro parecer menos fraco e pretencioso. Só é uma pena ver profissionais tão capazes sendo desperdiçados em uma produção que parece ser a realização pessoal de uma roteirista que suga para si as habilidades de uma equipe de profissionais que poderiam fazer uma diferença muito maior no mercado cinematográfico brasileiro.
No fim, Lispectorante é uma obra abstrata que quer chamar atenção para si com uma moldura bonita e feita com os melhores pincéis e tinta, mas que no fim foi apenas uma derrubada de tinta acidental.
P.S: Se Renata Pinheiro fosse uma boa roteirista, como é uma boa diretora, este filme poderia ser brilhante.
