Superman é a fênix decisiva ressurgindo de um gênero às raias da extinção
Que o gênero de heróis está saturado não é novidade para ninguém. As novidades que temos visto pouco empolgam e o fan service tem sustentado o gênero através da nostalgia.
Sempre bati na tecla que os filmes de heróis que estão recebendo suas estreias nas telonas não tem conseguido se conectar com o público por dois conceitos basilares: a identificação com a parte humana e o sacrifício do herói.
Os heróis tem cada vez mais resolvido conflitos internos, por mais que seus antagonistas gerem prejuízos às pessoas em geral. Os “heróis” são obrigados a enfrentarem vilões em prol de si mesmos ou de um círculo de relacionamento muito interno. Não são heróis porque querem ser heróis.
Este problema não é visto nos maiores filmes do gênero: os dois primeiros do Homem-Aranha de Sam Raimi. Nem na medalha de prata do ranking que é a trilogia do Batman de Christopher Nolan. Se os heróis nestes casos questionam seu heroísmo é um conflito moral que reforça a posteriori o herói que eles são. E um bom filme de herói sabe tratar deste assunto intrinsecamente ao universo que está apresentando.
Este assunto é muito mal tratado em Homem de Aço de Zack Snyder, que parece confuso e perdido no próprio conceito de motivação do Super Homem, reflexo da própria falta de raciocínio moral que Zack Snyder parece ter quando tem que trabalhar um roteiro ao invés de simplesmente se inspirar quadro a quadro em alguma obra já existente, como fez em 300 ou Watchmen.
Isso se reflete até mesmo em Batman vs Superman, onde o Super-Homem diz que “ninguém permanece bom neste mundo” e flerta com sua futura hipótese vilancesca a lá o universo de Injustice, que está longe de ser a melhor versão dos universos da DC mais do que uma mera ideia conceitual ou embaralhamento de ideias já apresentadas.
Recentemente percebi que este começo torpe do Universo Compartilhado DC criado por Zack Snyder é culpa sem querer querendo de Christopher Nolan e sua versão do Batman. Perceberam que o universo DC dos quadrinhos tem uma grande capacidade de ser sombrio e mais realista e com isso ser criticamente bom e mais palatável à visão cinematográfica de heróis uniformizados enfrentando vilões, por mais elementos sobrenaturais que existam.
Mas a indecisão de estilos e a falta de coesão e esmero nos filmes fez este universo minguar até morrer. E talvez devesse ressurgir das cinzas de forma totalmente repaginada e na contra mão do que já vinha sendo feito e ninguém melhor do que o primeiro e maior símbolo de herói de todos para fazer isso: Super-Homem!
Quando James Gunn fez sua versão do Esquadrão Suicida e revitalizou a imagem de um título de filme que estava ligado a fracasso, a Warner, desesperada como estava, decidiu seguir a lógica: Dê um universo a este homem.
James Gunn mostrou-se um especialista em trazer heróis menos conhecidos dos quadrinhos à luz, como realizou em Guardiões da Galáxia e O Esquadrão Suicida. Mas e agora com o herói mais conhecido de todos e em um filme solo?
James Gunn decidiu não começar o universo do 0 com mais uma história de origem em que aos poucos a humanidade vai recebendo mais e mais nomes heróicos e o universo cresce cada vez mais. A lá Watchmen, os seres super-podersos uniformzados já estão entre nós e não só isso: a relação entre Clark Kent e Lois Lane já começou (e ela sabe que ele é o Super-Homem) e a briga entre Super-Homem e Lex Luthor já existe há um tempo.
Isso nos poupa de repeteco como o Batman de Matt Reeves nos poupou e James Gunn teve a habilidade de não deixar nenhuma informação básica do plot de Super-Homem de fora e mais do que isso: além de parte integrante, é parte direta da trama.
Aliás, parece que tudo apresentado tem importância participativa no desenvolvimento da obra. A mensagem dos pais de Kal-El é utilizada nos planos de Lex Luthor, os heróis colegas do Super-Homem o ajudam de forma precisa e até mesmo o Planeta Diário e seus membros mais próximos de Clark Kent tem sua importância – embora nesta parte pode um pouquinho forçado. Um outro ponto de destaque é a química entre o casal principal, que é presente mesmo os dois não tendo tantas cenas juntos assim e o relacionamento deles estar no início. Ambos tem carisma e são fiéis à essência de seus personagens, o que pode ser dito dos demais também.
Dá pra sentir o esforço de James Gunn em quase todos os personagens serem bem utilizados, por mais que ocorra certos efeitos colaterais, como por exemplo o Sr. Incrível acabar sendo um deus ex-machina. Mas dados os poderes dele, ele apenas utilizou as ferramentas que estavam a seu dispor. E nada disso surpreende para quem conhece o trabalho do diretor e sua capacidade de desenvolver filmes de equipe. Muitos temeram que ele criasse um filme de equipe disfarçado de filme individual, mas Super-Homem não perde seu protagonismo em absolutamente lugar nenhum. Ele é a força motriz desta história, muito bem obrigado.
Eu temi que, para se distanciar de sua mais recente versão do Homem de Aço, James Gunn criasse um Super-Homem tão puro que fosse ingênuo. Conforme os trailers aconteciam, Clark Kent parecia até mesmo meio “aborrecido” demais. A personalidade dele não me pareceu muito clara como um todo. E durante o filme isso se manteve, pelo menos até o terceiro ato, quando o filme afirmou algumas declarações de James Gunn de que seu Super-Homem é um homem bom, mas que não é ingênuo. É alguém com toda a carga de experiência de cerca de trinta anos, mas que não cedeu sua fé ao niilismo. E não é caricato em momento algum. A atuação é bastante natural e coesa. E bem mais realista, por exemplo, do que a de Henry Cavill. No geral as atuações do filme são caricatas apenas quando James Gunn quis que fossem (o que a lógica deste universo permitiu). Um outro paralelo que se pode traçar é em relação à força de resiliência que inspira a aurea que bruxuleia ao redor de ambos Supers: enquanto o de Zack Snyder é praticamente um deus entre homens e decide usar isso para proteger o povo que o recebeu ainda bebê, o de James Gunn vê a imperfeição de sua própria humanidade como o elo que o liga aos humanos e tira disso sua força.
E James Gunn foi hábil em aproveitar o potencial de carisma do Super-Homem, quando ele da importância a absolutamente toda e qualquer vida, por menor (um esquilo ou um cachorro) ou pior (Lex Luthor) que seja a criatura.
Mas não se engane achando que o Super Homem não questiona seu heroísmo em momento algum. E quando esse baque surge, é muito bem orquestrado e fornece mais substância ao filme de herói como filme de herói e segue com confiança – o que é positivamente de se esperar – a Jornada do Herói de Joseph Campbell.
E Lex Luthor é o contraponto perfeito ao Super-Homem. Ele não finge ser um gênio como o Lex do universo de Zack Snyder, sem mostrar seus raciocínios, apenas o efeito deles. Lex é um vilão à altura do Homem de Aço e que usa todas as possibilidades fantastico-cientificas de seu universo para atingir seus objetivos e sua motivação não é muito diferente das do Lex do universo de Jesse Eisenberg, apenas melhor trabalhada.
James Gunn não se poupa em ir no caminho oposto ao início do universo DC antecessor, sendo colorido e visualmente quadrinhesco, além de ter criaturas idiossincráticas bem ao seu estilo característico, que sempre fez muito bem o dever de casa neste sentido, sendo um exímio conhecedor dos quadrinhos e por isso sabendo usa-los da melhor forma e parecendo se divertir como uma criança que tem uma infinidade de brinquedos à sua disposição. E não apenas nisto ele fez o dever-de-casa:
É nítido como ele não só aceitou o desafio de fazer um filme à altura do maior herói da Terra em um início de universo compartilhado (pós-fracasso), como dobrou a aposta, mantendo sua identidade cinematográfica e ainda sendo bem eficaz nas técnicas de storytelling e fazendo um filme bem recheado e com multi acontecimentos em um espaço curto de tempo, mas sem perder a mão de nada ou deixar pontas soltas. (Ou pelo menos que pareçam que serão resolvidas mais à frente).E ainda dando gravidade às situações, que são envolvidas por seu humor de sempre, sem nunca destoar o tom.
Embora algumas vezes o CGI seja fraco, isso não atrapalha a experiência em si. Confesso que senti falta de ver mais da vida de Clark Kent além daquele curto recorte de dois dias em uma vida tão caótica como a dele. Porém, mesmo assim, Superman é um filme poderoso, divertido, dinâmico e que traz o senso de heroísmo clássico que tanto sentíamos falta. E sua maior proeza foi inspirar em fazer o bem independentemente das circunstâncias e não víamos esta mensagem do mais puro heroísmo desde a trilogia do Homem-Aranha de Sam Raimi (que ouso dizer que inspirou alguns momentos aqui) e os filmes do Batman de Christopher Nolan. Seria interessante também ver a dificuldade de conciliar a vida de herói e a identidade secreta. Talvez tenha sido a maior falha do filme. Isso era algo essencial que foi escanteado a um mero “você está atrasado” de Perry White.
Talvez se fosse menos corrido e/ou se passasse durante um período maior de tempo, teria espaço para trabalhar estes quesitos, mas caiu como uma luva no contexto desta realidade onde mil coisas acontecem ao mesmo tempo todos os dias, não só mostrando a necessidade que o mundo tem de existirem heróis – como precisamos na vida real – como nos empolgando para as milhões de possibilidades à frente.
