No texto “Sarmiento, escritor”, de Ricardo Piglia, o autor conta sobre o mais famoso escritor da Argentina do século XIX, Domingo Faustino Sarmiento, que conseguiu chegar à presidência utilizando a sua maior arma: a escrita. Porém, mesmo com esse artifício, Piglia faz uma afirmação no início de sua obra: “impossível ser escritor na Argentina no século XIX”. Se era impossível ser escritor, como Sarmiento ganhou este título? Para responder essa pergunta, devemos analisar a história da América Hispânica naquele momento.
Vindo de um imperialismo violento, que destruiu as aldeias e povos que moravam no território antes mesmo dos espanhóis saberem de sua existência, o colonialismo chegou para avançar, ou, pelo menos, tentar, política e civilizadamente, criando e comandando suas províncias. Com os espanhóis no topo da pirâmide, a elite “criolla” não possuía espaço na política e no comando, sendo oprimidos juntamente com os indígenas e os escravizados africanos. Quando a Espanha começou a se fragilizar, os criollos agarraram a oportunidade e começaram um processo de emancipação política, que obteve sucesso no início do século XIX. Mas a literatura estava atrasada.
Com a política dominando todos os lados dos países, a literatura não conseguiu escapar das suas amarras. Ela não tinha autonomia, não tinha espaço para viver e crescer, havia uma resistência para com os textos que não possuíam caráter político. Todos que escreviam possuíam algum cargo político. Assim como afirma Piglia: “Durante o século XIX, os escritores argentinos parecem viver uma dupla realidade; há um secreto revés em sua vida pública: são ministros, embaixadores, deputados, mas não podem ser escritores”. A palavra, a escrita, deveria estar ligada à verdade, à seriedade, à responsabilidade com o seu país. Aqueles que escreviam ficção, verdades inventadas, estavam ligados à gratuidade e ao ócio, sendo essa antagônica ao sentido oficial e verdadeiro da escrita. Apesar de “Facundo: civilização e barbárie”, de Sarmiento, ser considerada a obra inicial da literatura, ela não foi escrita com esse fim: foi escrita com um objetivo político, civilizatório com aqueles considerados não civilizados.
Portanto, para que a literatura ganhe o seu próprio espaço na cultura nacional dos países pertencentes à América Hispânica, ela precisa se libertar da política, e, quando consegue, funda um rico e diversificado acervo que conta com obras de todas as épocas, desde a chegada dos espanhóis, passando pelas independências e chegando aos dias atuais, ainda que, infelizmente, algumas tenham se perdido no caminho.
