No último final de semana tive a oportunidade de assistir Elã, a peça da Cia de Teatro Mungunzá, que surge como um lembrete poderoso da força do teatro vivo. Em um país onde a arte resiste diariamente, Elã reafirma que o teatro não apenas permanecem ele pulsa, transforma e provoca.

A obra se estrutura como uma espiral temporal na qual oito histórias se cruzam em camadas sobrepostas. Cabe ao público decidir de onde observar e como montar, aos poucos, a teia narrativa. Essa liberdade de escolha não só envolve como também exige atenção e entrega, criando uma experiência sensorial que vai além da simples contemplação.
As oito histórias de Elã se desenvolvem com identidade própria. Cada uma carrega um estilo, uma atmosfera e uma reflexão distinta, mas todas se entrelaçam com naturalidade conforme o espetáculo avança. É impressionante como cada núcleo ganha força individual enquanto contribui para um todo maior, revelando o potencial infinito do teatro para se moldar, se reinventar e dialogar com o público.

A direção de Isabel Teixeira é um espetáculo à parte. Ela conduz a peça com autenticidade e precisão, transitando com leveza entre tempos, espaços e emoções. A fluidez com que ela amarra essas diferentes camadas revela um domínio raro, criando uma narrativa que respira, cresce e se expande diante dos olhos da plateia.
O elenco, composto por Leo Akio, Lucas Beda, Marcos Felipe, Pedro Oliveira, Sandra Modesto e Veronica Gentilin, além da participação de Virgínia Igleas, funciona como um organismo único. A sinergia entre eles impressiona: cada gesto, troca de olhares ou mudança de energia se conecta como se todos dançassem um ballet invisível, perfeitamente sincronizado. Esse conjunto é o motor que mantém o espetáculo vivo, vibrante e muito humano.
A Cia Mungunzá, já conhecida por sua capacidade de transformar espaços, mais uma vez se destaca ao explorar o teatro em container com inteligência e sensibilidade. A forma como o grupo utiliza o espaço, os deslocamentos e a proximidade com o público dá à peça um caráter íntimo e visceral. A movimentação prática, quase tática, revela uma compreensão profunda de como fazer arte em qualquer terreno literalmente.
No fim, Elã é mais que uma peça: é uma experiência, uma celebração e uma afirmação. É uma obra que carrega ideias e propósitos, lembrando o motivo pelo qual o teatro continua existindo, resistindo e provocando. Ele vive justamente porque se reinventa em diferentes formas, linguagens e forças. E Elã é a prova de que, enquanto houver artistas dispostos a criar, o teatro jamais morrerá.
