Drama despretensioso mostra seu poder na simplicidade

Muitos roteiristas de drama tentam estruturar seus filmes se adequando ao que à academia pede: problemáticas fortes que explodem no núcleo da história e cujos estilhaços atingem os personagens em maior ou menor grau, dependendo do nível de importância dos mesmos no storytelling. E adequam os quesitos técnicos de filmagem e o trabalho dos atores de acordo com as categorias. E isso, quando perceptível, faz o filme ser visto como “forçado” e isso o descredibiliza. “Um Pai para Lilly” poderia facilmente cair neste problema, mas não o faz.
Lilly Trevino (Barbie Ferreira) é uma jovem que mesmo com sérios problemas para enfrentar as pessoas – e a si mesma – não perde a confiança e a disponibilidade às pessoas à sua volta, estando essas dispostas ou não a fazer o mesmo.
Seu pai, o problemático Bob Trevino – vamos chama-lo de Robert por motivos que quem assistir irá entender – é um homem ausente , egoísta e mentiroso compulsivo e o oposto moral de sua filha: tenta sugar todas as pessoas ao seu redor, extraindo delas apenas o que lhe é conveniente.
Ao pedir ajuda para Lilly em um encontro e acabar caindo nas próprias mentiras, ele a acusa e assim afasta-se dela. Carente por atenção e com um excesso de empatia – e falta de amor próprio – ela vai atrás do pai de todas as formas que consegue – inclusive no facebook.
E é assim que ela encontra um homem com o mesmo nome de progenitor: Bob Trevino. Bob é um homem que, à sua maneira, tem muitas coisas em comum com Lilly, como a solidão gigantesca e o problema em colocar limites nas pessoas.
Primeiramente online e depois pessoalmente, ambos começam a ser companhia um para o outro e passam por bons momentos juntos enquanto cada vez mais parecidos com pai e filha. Bob é para Lilly como o pai que ela não tem, e Lilly é para Bob como sua filha – tendo ele perdido um filho recém-nascido.
A relação dos dois não é forçada nem na maneira como começa e nem como se desenrola. Num filme que se concentra na relação entre personagens, o ritmo deve ser adequado como o compasso de uma música. E aqui isso é feito do jeito certo, porém talvez com uma certa curta duração – que pode ser inspirada na duração do relacionamento entra a diretora, produtora e roteirista Tracie Laymon e o verdadeiro pai fictício que inspirou a criação deste filme.
Mas mesmo a curta duração do relacionamento entre esta filha e este pai, este amigo e esta amiga, seja talvez o poder da história: a curta duração deu um impacto permanente na vida de ambos e inspirou tomadas de decisão.
O filme tem uma direção discreta, onde até mesmo o posicionamento das personagens no cenário ajuda a contar a dinâmica entre eles. Em certos pontos o fundo retorcido atrás de Lilly é quase uma onomatopeia visual que mostra como ela está se sentindo – uma versão simplificada de filmes adolescentes voltados ao público feminino.
Todas as atuações estão na medida certa, honrando os diálogos que são muito realistas – até quando se está falando algum absurdo – e funcionais. John Leguizamo mostra toda a força de um ator veterano: contido mas prático, emotivo mas simplista.
Mas o que merece destaque e brilha em cena é Barbie Ferreira. A atuação dela tem camadas múltiplas de acordo com as várias camadas psicológicas desta personagem. A verdade cênica é esbanjada em cada gesto ansioso, em cada expressão vívida. Seria um papel onde uma ator mais fraco poderia facilmente cair em maneirismos forçados. Não parece que estamos vendo uma atuação. Parece que Lilly realmente existe e está enfrentando todos esses dilemas.
Caso “Um Pai para Lilly” se estendesse mais, caso desse mais destaque a coadjuvantes e a simples cenas contemplativas ou dramáticas, poderia cair nas raias de um filme “Papa Oscar”. Mas através dos caminhos mais simples e até mesmo clichês, conseguiu mostrar toda a sua potência. Não como um drama marcante ou ícone do gênero, mas como uma produção que cumpre exemplarmente o seu papel.
