Espetáculo – Tão carne quanto pedra e Boca Abissal
Treze bailarinos encenam para uma plateia absorta o espetáculo “Tão carne quanto pedra”. Corpos ágeis e potentes transformam o palco com uma dança milimetricamente coreografada. Corpos fortes que reagem às mudanças internas e externas, assim como o solo e as rochas às mudanças do clima. A proposta da dança brinca com o paradoxo dos nossos “ossos e sangue sendo uma combinação dos mesmos minerais encontrados nas águas, no solo, nas plantas e nas calçadas em que pisamos todos os dias.” Carne e pedra respondendo à avalanche que é esse mundo. Se o planeta está sentindo, nossos corpos reagem. Se a nossa mente sente, nossos corpos percebem.
A coreógrafa Michelle Moura coloca os bailarinos em movimentos ora retorcidos, em posições incomuns demonstrando fragilidade ou inércia, ora exigindo uma força física admirável. Muitos gestos com as mãos, expressões de dor e medo marcam boa parte da apresentação. Nos damos conta da complexidade da mente humana ao ver as emoções sendo performadas. Vemos como somos empurrados por um mundo prestes a explodir, “em chamas”, como diz ela. Indivíduos “inflamados, ansiosos, em constante sobressalto” se equilibram na ponta dos pés. A trilha sonora de Kaj Duncan e Rodrigo Lemos com sons que lembram um filme de suspense ou terror. Deixando expectativa e inquietação no ar.
A DANÇA DOS CORPOS
A coreógrafa Rafaela Sahyoun chega com a segunda apresentação com um arrebate surpreendente. Em “Boca Abissal”, os bailarinos usam todo o corpo em ações muito enérgicas. Às vezes sozinhos com movimentos com o quadril e pélvis; outras vezes em duplas, tocando uns aos outros de forma consciente, ou em movimentos que desafiam a gravidade. Logo depois, passadas e pulos fortes e consistentes.
Rafaela explica que a nossa boca é o “Teto côncavo de um cosmos interno e o primeiro tambor do corpo”, e abissal “Não é uma queda sem fim. Ao tocar o fundo, o campo pulsa, se acumula e irrompe em um resgate selvagem, humano, animal e visceral.” O conceito da coreografia trabalha a dinâmica do corpo humano e a resposta às emoções. A ideia de Boca Abissal é a de produzirmos energia em um mundo em colapso. A dramaturga Angela Ribeiro resume como um “corpo que encontra no outro a coragem para seguir insistindo na vida”. Yantó assina uma trilha sedutora que desperta vivacidade. O público se inclina da cadeira enquanto a dança, a música e os sons made in Brasil ressoam pelo Theatro Municipal encerrando a temporada do Balé da Cidade de São Paulo.
Acompanhe as próximas temporadas do Balé da Cidade no site oficial do Theatro Municipal.
