Após 41 anos, Paris, Texas; está em cartaz nos cinemas, relançado digitalmente em 4k. O filme de Wim Wenders ganhou prêmios em Cannes no ano de lançamento e é constantemente lembrado com carinho pelo público. Paris, Texas; é uma conversa íntima de frente para o espelho ou para uma câmera – a pele marcada pelas experiências, o semblante que escancara os erros e o reconhecimento chocante de quem somos ou éramos. Uma imagem que vemos e, às vezes, ignoramos. Ver isso em uma tela pode ser esclarecedor. É a chance de sentir as emoções de uma pós- autorreflexão. Constatar o que ou quem somos é um exercício difícil, mas importante.
Travis nos leva por uma caminhada no deserto do Texas. Inóspito e escaldante. Ele caminha sem rumo, está sujo e usa um terno risca de giz e um boné vermelho. Ele se depara com trailers, entra e procura desesperadamente por água. E cai no chão inconsciente. Um homem aparece em cena e é apresentado como um médico, o examina e encontra um telefone. É do seu irmão Walt que vai ao seu encontro após acreditar que ele estivesse morto. Travis desapareceu há quatro anos, sem deixar rastros; assim como sua esposa, Jane. Seu filho Hunter, agora com oito anos, foi deixado à porta de Walt e sua companheira, Anne, uma francesa que cria o filho de Travis como seu. Veja o trailer digitalizado:
O encontro com Walt é impactante. Travis permanece emudecido durante a maior parte do caminho de volta para casa, enquanto seu irmão tenta desvendar seu sumiço e comportamento. Quando ele fala, não consegue dar nenhuma explicação: não lembra da cunhada, não sabe a idade do filho e não consegue dar detalhes de onde esteve. A volta pra casa também marca o retorno de Travis à sociedade. “Paris. Paris. Você já foi a Paris? Podemos ir lá agora?”, Travis pergunta ao irmão. Sua única lembrança vem de uma foto de um terreno no meio do Texas comprado por ele, não sabe quando nem o porquê. Aos poucos, traz a mãe à memória questionando Walt qual o nome dela antes de conhecer o pai. O que o faz lembrar o motivo da compra: crê que foi concebido ali. Sem o reconhecimento, Travis está nos contando que sua identidade começou ali. Paris também era uma piada interna do pai em referência à esposa. “Minha mãe não era uma mulher chique… era simplesmente, simples. Meu pai teve essa ideia sobre ela e olhou pra ela, mas não a viu. Dizia às pessoas que ela era de Paris e, então, esperaria antes de dizer Texas. Ele sempre riu muito disso.”

Hunter compreende que teve uma família antes, embora pouco se lembre. A cena onde os dois se revêem nos aproxima ainda mais de Travis. Hunter é uma criança com uma impressionante compreensão dos fatos, a qual muitos adultos tendem a minimizar; e com habilidades que perdemos na evolução – aberto para descobertas e para o perdão. No convívio com ele, o pai aparenta deixar sua ida a Paris, Texas, para trás. É quando passamos a conhecer Jane, sua ex-companheira, pela lente das lembranças e filmagens que a família tem. Ela é a continuidade de Travis. E ele precisa encontrá-la. A caminhada recomeça, mas agora ele sabe o porquê. Jane entra em cena e nos identificamos com suas motivações. Trabalha em um peep show – prática popular na época por homens pagarem para verem mulheres em cabines realizando atos. No fictício de Wim Wnders, há um espelho entre o cliente e as mulheres. Travis vê Jane e o contrário não acontece. O evento é magnético. A melancolia, a raiva e o vazio sentidos em todo o filme se manifestam no diálogo entre o casal. A compreensão dos acontecimentos e a nova perspectiva revelando-se de um jeito quase silencioso mesmo com a intensidade imensa das emoções. Uma conversa dolorosa que acompanhamos pensando nas que tivemos.
Jane nos desperta para a prisão que estava em sua própria imaturidade comum e aceitável de sua muito pouca idade; e no risco do envolvimento com um adulto, muito mais velho, que se tornou abusivo. Além de sintomas semelhantes à depressão. .O nascimento de Hunter foi visto por Travis como um elo permanente entre os dois, mas, principalmente, como um final para sua antiga caminhada. Seu antigo eu. Travis via Jane como queria, assim como seu pai. Nesse momento, ele não vê seu próprio reflexo no espelho. Mas Jane sim, que conversa com a própria imagem. Ele olha diretamente para ela, onde vê a si mesmo nela. A caminhada continua.
A partir de hoje na salas dos cinemas de todo o Brasil trazido pela O2 Play Filmes.
Crédito do material: divulgação.
