Uma fábula sobre o ensino médio
Nesta quinta-feira, estreia no Teatro Santander a montagem brasileira de Meninas Malvadas – O Musical, adaptação do espetáculo da Broadway e do icônico filme de 2004. Mas será que essa versão faz jus ao material original? Vamos descobrir.
Primeiro Ato
O musical tem um grande triunfo logo no início: sua abertura. Lara Suleiman e Arthur Berges transbordam carisma como Janis e Damian – é como se tivessem nascido para esses papéis. A dinâmica entre os dois é excelente, e o que fazem em A Fábula Moral, quebrando a quarta parede, é simplesmente sensacional.
Então chegamos à Cady de Laura Castro, que sem dúvidas supera a versão do filme de 2024. Laura entrega carisma, fofura e uma inocência genuína, mas também carrega um fundo de malícia, assim como todos ao seu redor. Ouvi-la cantar é como assistir a um balé, com nuances delicadas em cada nota – ela parece brincar com a melodia, especialmente em Stupid With Love. Sua química com André Torquato (que, na minha opinião, é o melhor Aaron entre todas as versões) é encantadora. Me senti de volta ao ensino fundamental com o meu próprio Aaron Samuels.
Mas não podemos falar de Meninas Malvadas sem mencionar As Poderosas: Regina, Gretchen e Karen. Cada uma delas mereceria um parágrafo próprio, mas, como grupo, são impecáveis. Elas nasceram para esses papéis. Quando entram em cena pela primeira vez, parecem dominar o palco com uma energia sobrenatural.
Gigi Debei, como Gretchen, é um espetáculo à parte. Ela adiciona camadas à personagem com olhares e posturas que dizem mais do que palavras. Seu trabalho é admirável, mesmo em seu solo, que é a música mais fraca do musical. Mas ela dá um toque especial, principalmente nos surtos de sua personagem – a cena de Revenge Party me pegou de surpresa.
Aline Serra, como Karen, é simplesmente perfeita. Basta olhar para ela para ver a Karen encarnada. Assim como Gigi, seu olhar transmite a falta de inteligência da personagem – parece que, se ela caísse, seu cérebro faria eco. Sua performance em Sexy é um show à parte, e o uso dos telões e do cenário nessa cena é brilhante.
E, por fim, o que dizer de Anna Akisue como Regina George? Sua presença é arrebatadora desde o primeiro momento. Ela tem uma força impressionante, e sua voz reforça ainda mais essa aura de poder. Quando canta Someone Gets Hurt, a maneira como equilibra charme e ameaça arrepia qualquer um.
O contraponto com sua mãe, a Sra. George, interpretada por Danielle Winits (que também assume os papéis da Sra. Heron e da Sra. Norbury), funciona muito bem. Danielle consegue diferenciar cada uma das personagens e tem um excelente timing cômico.
O primeiro ato da peça é extremamente sólido, tanto no elenco principal quanto no ensemble, que brilha em todos os momentos e mantém uma sintonia impecável – principalmente no encerramento do ato.
Segundo Ato
O maior problema do segundo ato já começa na escolha do libreto para o encerramento do primeiro ato. Seguir tão fielmente o filme faz com que a narrativa perca força e resulte em uma queda de ritmo significativa. Isso impacta até as músicas, cuja qualidade diminui bastante, com poucas se destacando.
Laura Castro tem uma leve queda como Cady no início do segundo ato, demorando um pouco para convencer como a abelha-rainha. No entanto, ela consegue se recompor, e, com a força do elenco ao seu redor, recupera o brilho. Seu solo final, I See Stars, funciona até melhor do que na Broadway.
Mesmo com os problemas de ritmo, quando o segundo ato brilha, ele brilha intensamente – principalmente nos solos de Janis e Regina, que são verdadeiras obras de arte.
Mundo em Chamas é a essência do teatro musical. A cena é um espetáculo visual e performático, um caos maravilhoso que mistura circo com Game of Thrones. O equilíbrio entre solista e ensemble é impecável, e Anna Akisue crava aqui sua futura vitória no Bibi Ferreira.
E então chegamos a I’d Rather Be Me, que é um tipo de caos libertador. Lara Suleiman prova por que é uma das melhores atrizes do teatro musical brasileiro. Sua performance é carregada de raiva e emancipação, um verdadeiro grito de liberdade que faz você querer subir no palco e mandar todo mundo se f**** junto com ela.
Conclusão
No fim, Meninas Malvadas – O Musical é uma grata surpresa para fãs da obra original e do musical da Broadway. Com um elenco sólido e impecável, a montagem brasileira se destaca como uma das melhores dos últimos anos. Vale cada centavo e tem o potencial de dominar todos os prêmios da temporada do teatro musical.
