O Amor Melancólico de Oliver Herman
O novo drama romântico da Universal Pictures, História do Som (The History of Sound), é um dos grandes atrativos da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Dirigido por Oliver Hermanus, o longa tenta capturar a sensibilidade do amor entre dois homens em meio às cicatrizes deixadas pela Primeira Guerra Mundial. Com Paul Mescal e Josh O’Connor nos papéis principais, o filme promete emoção e poesia mas será que entrega tudo o que promete?
Sinopse: Um Amor em Meio ao Som das Vozes Perdidas
História do Som acompanha Lionel (Paul Mescal) e David (Josh O’Connor), dois jovens que embarcam em uma jornada pelos campos da Nova Inglaterra para registrar as vozes e canções de ex-soldados americanos. À medida que viajam, o projeto de catalogar as músicas se transforma em uma história de autodescoberta e amor, entrelaçando o passado e as dores de uma geração marcada pela guerra. É um enredo intimista, belo em conceito, mas que perde força em execução.
O Romance e a Melancolia no Olhar de Oliver Hermanus
Oliver Hermanus, conhecido por seu olhar sensível sobre temas humanos, tenta criar em História do Som uma narrativa que une memória, música e amor proibido. A estética melancólica, com paisagens rurais e tons frios, é visualmente impecável, mas o ritmo lento e a falta de intensidade emocional acabam tornando o filme mais contemplativo do que envolvente.
Hermanus quer que o público sinta o peso do tempo, o silêncio da perda e a força do amor em meio à solidão. No entanto, a obra parece se distanciar de seus próprios sentimentos tudo é bonito, mas pouco é sentido. O resultado é uma experiência que, embora visualmente encantadora, soa fria e distante.

Paul Mescal e Josh O’Connor: A Força da Atuação
Apesar do roteiro irregular, o ponto alto de História do Som está nas atuações. Josh O’Connor, com seu carisma e sorriso contido, entrega um David cheio de nuances. Já Paul Mescal, em sua timidez introspectiva, oferece um contraponto interessante. Juntos, eles constroem uma química delicada e sincera, ainda que o texto nem sempre colabore para que o público se envolva completamente.
A dinâmica entre os dois brilha especialmente nas cenas em que a música folclórica ganha espaço. As canções servem como uma metáfora para o amor – simples, sincero e efêmero. É nesse momento que Hermanus encontra o tom certo: o som que une Lionel e David é também o que dá sentido à jornada.
O Papel da Música em “História do Som”
O título não é por acaso. A música é a verdadeira protagonista da história. As canções folclóricas e os sons gravados pelos personagens funcionam como testemunhos do passado, vozes de uma geração que tentou se reencontrar após a guerra. O som é o elo entre o trauma e a esperança, entre o silêncio e o amor.
Contudo, mesmo com essa base sonora poderosa, Hermanus parece subestimar o potencial musical da narrativa. O longa prefere se prender à estética e à lentidão poética, deixando de explorar com profundidade o significado do som — tanto literal quanto emocionalmente. O resultado é um filme que promete mais do que cumpre, ecoando suavemente, mas sem força suficiente para permanecer.
Comparações Inevitáveis: O Fantasma de Brokeback Mountain
É impossível assistir a História do Som sem lembrar de O Segredo de Brokeback Mountain (2005). Ambos exploram o amor masculino em tempos de repressão, mas o filme de Hermanus não atinge o mesmo impacto emocional. Falta intensidade, falta dor, falta aquele sentimento de urgência que faz o espectador torcer pelos personagens.
Mesmo assim, História do Som tem o seu valor. É um romance melancólico, poético e visualmente deslumbrante, que fala sobre conexões humanas em tempos de dor. Pode não emocionar tanto quanto promete, mas certamente deixa sua marca como um retrato elegante e triste de um amor que ecoa no tempo.

Conclusão: Um Poema Visual Que Falta Alma
História do Som é um filme de contrastes belo, mas frio; sensível, mas distante. Oliver Hermanus entrega uma direção refinada, sustentada por atuações fortes e uma fotografia impecável. No entanto, o longa parece mais preocupado em ser bonito do que em tocar o coração do espectador.
Ainda assim, o filme merece ser visto. Sua sutileza e delicadeza fazem dele uma boa adição ao cinema queer contemporâneo, mesmo que não alcance a profundidade que poderia. História do Som é, afinal, um sussurro de amor em meio ao ruído do mundo.
