Você conhece Machado de Assis?
Entender a crônica machadiana é importante para entender o romance machadiano, já que Machado de Assis utiliza uma série de procedimentos estilísticos que inseriu na crônica, em seus romances. Ele faz da crônica uma espécie de laboratório. Para além disso, tal escritor de grande reconhecimento nacional não era um elitista cultural. Da mesma forma que ele bebia das fontes da chamada “alta cultura”, em seu trabalho experimental, também estava atento às manifestações da cultura popular, que começava a entrar em um processo de massificação.
Sobretudo, a mudança contínua de tom e assunto (escrita em zigue-zague, com digressões, por vezes, interpelações e potência de hibridização), como efeito estilístico estratégico, que visa atingir certa proximidade com o leitor; a metacrônica (metalinguagem), ao utilizar do texto para falar do próprio modo de escrevê-lo; a quebra da função didática, ao nem sempre ensinar como viver no meio urbano e a recusa da facilidade programada – primeiro cronista a fazer tais rompimentos em alguns textos –, ao não serem abordados temas considerados leves, expondo, em contrapartida, os polos dialéticos da vida, como a loucura e a consciência – aproximação entre a palavra pensante e a palavra poética –, fazem parte das características de algumas das crônicas-folhetim de autoria de Machado de Assis, bem como, em muito, podem ser visualizadas em seus romances.

Assis cruza a fronteira. Seus textos possuem autocolagem (passagens reaproveitadas), estabelecendo uma relação intratextual (relação entre textos do mesmo autor), dado que as singularidades de suas próprias crônicas também aparecem nos romances em que escreveu, como Quincas Borba, que trata polos dialéticos da vida – como loucura e consciência –, explorando também a questão da sede por dinheiro (tema que de forma alguma se deixa levar pelas vias da simplicidade). Ademais, outras funções que são apresentadas em seu campo de experimentação (crônica-folhetim), também são aprimoradas em seus romances, tal como a metalinguagem, incorporada também em Quincas borba, e em seus outros principais romances (em exemplo, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro), sendo evidenciada, inclusive, como parte fundamental da identidade dos romances machadianos.
“Machado de Assis mostra ao leitor, em O nascimento da crônica, que o gênero privilegia o cotidiano; começa com uma conversa despretensiosa sobre o dia, temperada com expressões em francês, em um estilo que atinge o leitor mais exigente.” (SIEBERT, 2014, p. 682). Portanto, Machado de Assis segue a tradição, começando com tal conversa não tão séria, mas também, traz mais que um lampejo das tensões da sociedade brasileira do século XIX, dando ênfase em pontos profundos, não antes explorados. Ele faz de seus procedimentos estilísticos utilizados em uma escrita potencialmente descartável, elementos de cânones nacionais.
Confira ainda:
Link da primeira imagem: https://www.mateusvaladares.com/editorial/machado-de-assis-grandes-obras/
Link da segunda imagem: https://opopular.com.br/infomercial/lablei-conecta-literatura-autoconhecimento-e-mundo-corporativo-em-goiania-1.3309784
