Crônica com spoilers e muitas referências pop sobre o longa-metragem francês Jack e a Mecânica do Coração.
Existem inúmeras obras que, embora façam parte do mundo das animações, não são destinadas ao público infantil.
Ou, ao menos, não serão inteiramente compreendidas por elas.
Como, por exemplo, Jack e a Mecânica do Coração. O longa de 2013 é uma crônica fantasiosa sobre os sentimentos e como os sentimos.
Jack é um menino cujas raízes complexas permeiam toda a sua vida.
Nascido na noite mais fria do ano, ele foi salvo pela parteira Madeleine e deixado com ela por sua mãe biológica.
O garoto nasceu com o coração congelado. Para sobreviver, foi implantado nele um relógio-cuco.
As 3 Regras
Para garantir sua sobrevivência com o relógio-coração, Jack tinha de seguir regras cruciais.
No mundo real, também existem pessoas que impõem diretrizes a si mesmas sobre o que e como sentir.
Metaforicamente falando, embora sigam-nas à risca como se tal qual Jack suas vidas dependessem disso.
Dessa forma, a experiência humana passa a ser pautada por erros e acertos, causas ganhas e perdidas.
Mas isso não vai contra nossa natureza, já que permanecemos vivos por causa do amor, da arte e da beleza? Robin Williams argumentaria que sim.
Jack não podia:
Tocar com os dedos nos ponteiros do relógio;
Se enfurecer;
E a última, mas mais importante regra: nunca, em hipótese alguma, se apaixonar.
Viver é diferente de estar vivo
O ato de se apaixonar pode significar inúmeras coisas.
A resposta depende do interlocutor.
A questão que paira em nossas cabeças é: o que o amor vira quando chega ao fim?
Existem pessoas que passam a vida inteira se privando do romance, com medo de terminar em frangalhos.
Há também aquelas que encontram o amor de suas vidas pelo menos duas vezes ao dia.
No campo nebuloso das relações amorosas não existe forma correta de viver, pelo menos para nós.
Jack, por outro lado, tinha sua expectativa de vida condicionada ao ato de não se apaixonar.
Sendo assim, o próximo passo da narrativa fica claro: ele se apaixonou.
E agora?
Para quem achou que amor e amizade resolveriam o caso, basta dizer que Jack não teve essa sorte.
Amor e adolescência podem não formar um bom par na vida real; enquanto dentro do filme, a situação escalona rapidamente.
Acacia é o alvo de toda a paixão de Jack. Por sorte ou azar ele é correspondido.
Jack decide ignorar a voz no fundo da cabeça que alertava sobre o perigo e beija Acacia.
Daí em diante, reviravoltas acontecem, e Jack se vê embarcando para sua cidade natal, que logo se transforma em seu leito de morte.
Jack e a Mecânica do Coração faz chorar, refletir e idealizar
Agora vemos um Jack que mal consegue andar, com os pulmões buscando ar e os pés enfraquecidos.
Essa poderia ser uma descrição poética e melancólica de um coração partido, e talvez realmente seja, na visão do criador, mas aqui carrega literalidade.
Jack não conhecia o mundo e não teve oportunidade de descobrir o que é viver com todas as dores, peculiaridades e alegrias.
Seu primeiro contato com aquilo que torna o humano, humano foi avassalador. Fatal.
Assim como os sentimentos, que nos atingem em todas as nossas, nem sempre primeiras, vezes.
A diferença é que, nós, pessoas normais, já dizia Carrie Bradshaw, levantamos e seguimos andando. Em frente.
