Bruxas, cinema e o preço do amor ao longo das décadas
Desde os primórdios do cinema, artistas utilizam o amor como motor narrativo. Ao longo das décadas, dos grandes dramas às adaptações românticas e, mais tarde, às comédias românticas clássicas, o audiovisual nunca deixou de retornar a esse tema. Isso acontece porque o amor permanece profundo, contraditório e essencial à experiência humana.
Entre as muitas fórmulas criadas para representar esse sentimento, uma se destaca com frequência: a bruxaria. Tradicionalmente associada ao feminino, ela simboliza desejo, poder e liberdade. Além disso, quando romance e magia se encontram, o resultado costuma ser memorável. Filmes como The Witches of Eastwick, The Witch e The Craft confirmam essa força simbólica. Ainda assim, algumas obras vão além e estruturam toda a narrativa a partir do conflito entre amar e preservar o próprio poder.
Bruxaria e romance: uma bruxa para cada época
Curiosamente, o cinema parece apresentar uma grande bruxa para cada período histórico. Antes de figuras populares como Agatha Harkness, Elvira ou Sabrina, já existiam personagens cujos destinos se entrelaçavam por um sentimento tão universal quanto perigoso: o amor. Dessa forma, cada época projeta seus medos e desejos nessas mulheres mágicas.
I Married a Witch (1942): o amor como brincadeira
Em I Married a Witch, acompanhamos Jennifer, uma jovem bruxa condenada à morte durante a Inquisição em Salém. Antes de morrer, ela lança uma maldição sobre os descendentes de Jonathan Wooley, seu inquisidor. A partir desse momento, todos os homens da família Wooley passam a estar condenados à infelicidade amorosa.
Anos depois, um raio atinge a árvore sob a qual Jennifer e seu pai estão enterrados, libertando seus espíritos. A partir disso, Jennifer decide se vingar seduzindo Wallace Wooley. Nesse ponto, o amor surge como jogo e ironia. Ainda não machuca. Pelo contrário, funciona como diversão e truque narrativo.
Bell, Book and Candle (1958): o amor como escolha
Já em Bell, Book and Candle, conhecemos Gillian Holroyd, uma bruxa que vive secretamente em Nova York. Entediada com a própria rotina, ela se interessa pelo editor Shep Henderson. Por isso, decide enfeitiçá-lo, mesmo sabendo que ele já está noivo.
Com o avanço da relação, a brincadeira se transforma em sentimento real. Consequentemente, Gillian descobre que amar significa perder seus poderes. Nesse filme, o amor deixa de ser leve e passa a ser uma escolha consciente, carregada de consequências irreversíveis.
Practical Magic (1998): o amor como trauma
Em Practical Magic, a narrativa se amplia para além de uma única personagem. No passado, Maria Owens sobrevive a uma tentativa de execução por bruxaria e, após ser abandonada, lança um feitiço sobre si mesma. Assim, ela promete nunca mais se apaixonar. Com o tempo, esse feitiço se transforma em uma maldição hereditária.
Na atualidade, acompanhamos as irmãs Sally e Gillian Owens, criadas pelas tias após perderem os pais para essa mesma maldição. Nesse contexto, o filme mostra como o amor afeta cada irmã de forma distinta. Aqui, ele não é escolha nem brincadeira: torna-se trauma familiar, transmitido de geração em geração.
The Love Witch (2016): o amor como ilusão
No capítulo mais recente dessa trajetória, The Love Witch apresenta Elaine Parks, uma bruxa que se muda para uma cidade onde a magia é tolerada. Obcecada pela ideia de um amor ideal, ela inicia uma sequência de relacionamentos marcados por excesso e controle. Como resultado, seus amantes acabam mortos e incorporados a seus rituais.
Dessa vez, o filme expõe o amor como construção estética e performance. Não há redenção. Pelo contrário, resta apenas a ilusão. Amar, aqui, significa repetir um ritual vazio na esperança de validação.
Bruxas, liberdade e obsessão no cinema
De modo geral, bruxas no cinema representam liberdade feminina, desejo e ruptura com normas sociais. Por esse motivo, também carregam medo e rejeição. Esse imaginário se estende para outras mídias, como Wanda Maximoff no universo Marvel, cuja transformação nasce do luto e do amor maternal. Da mesma forma, Morgana Le Fay surge repetidamente como figura poderosa e ameaçadora em diferentes adaptações.
Por fim, independentemente da forma que assumem, essas personagens continuam fascinando. Amamos essas bruxas. Ao mesmo tempo, tememo-las e, não raro, aprendemos a odiá-las. Todo o mistério que carregam reflete algo profundamente humano: a busca incessante por amar e ser amado, mesmo quando o preço parece alto demais.
