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A laranjeira e a resistência: uma vida entre arcos e flechas e os canhões de fogo

Da luta contra a colonização até a luta ditatorial, o que fica é muito mais que a vontade de viver

O primeiro romance da ativista nicaraguense Gioconda Belli reflete sobre dois momentos históricos que, a princípio, podem parecer distintos, mas estão intimamente interligados: a luta dos povos originários contra os espanhóis que “descobriram” a América Latina e a guerra de libertação ao longo da ditadura em Fáguas, país criado pela autora. Esse país cumpre o papel de representar a Nicarágua entre os anos 1970 e 1980, e a luta da Frente Sandinista de Libertação Nacional, da qual a própria autora participou, contra o ditador Anastasio Somoza.

A narrativa de Belli acompanha a vida e luta de duas mulheres: Itzá, guerreira que combateu, ao lado de seu marido Yarince e outros homens, o domínio dos espanhóis e do seu Deus; e Lavínia, jovem arquiteta que tem seu interesse pelo Movimento de Libertação nacional despertado a partir de um acidente envolvendo Sebastián, amigo de seu amante, também arquiteto, Felipe. Essas duas mulheres, de épocas diferentes, trazem para a história os mesmos sentimentos, sensações, medos e desejos, conectadas por um elemento mágico que transforma o texto: a laranjeira.

Dentro da laranjeira que está no quintal da casa de Lavínia, antes pertencente a sua tia Inês, vive o espírito de Itzá, renascido longos séculos após a sua morte. A partir dos trechos do texto escritos em itálico, Itzá conta a sua própria história, sua vivência nesse novo corpo e novo mundo, e a conexão criada com Lavínia, após ela tomar o suco feito com as laranjas de seu quintal. O sangue, pensamentos e força das duas mulheres são compartilhados. As duas se tornam uma só, lutam por uma causa, por um país, por um território.

O espírito de Itzá percorre o corpo de Lavínia e, a partir das sensações desse corpo, a indígena revela cada vez mais sobre a sua história: desde a luta para ser aceita entre os guerreiros por ser mulher até os laços com Yarince e táticas de batalha. As sensações de Lavínia a fazemela lembrar sua vida na terra, da sua terra, das dores, das noites de amor, dos conquistadores espanhóis e das mortes.

Esse laço tão forte entre as duas pode ser criado a partir da exploração da autora no realismo mágico, que, segundo Roger Caillois, no prefácio da “Antologia del cuento fantástico”, seria definido como o “que se opõe ao mundo real sem destruir sua coerência”. O autor também explica que esses dois mundos coexistem, juntos, sem qualquer conflito, choque ou interposição. Porém, quando o espírito de Itzá entra no corpo de Lavínia, uma começa a interferir no mundo da outra, havendo sim uma interposição, um conflito. Itzá não apenas habita Lavínia: ela a atravessa.

Com Itzá, estar no corpo de Lavínia a faz lembrar as sensações durante o combate e tudo que teve que enfrentar por ser uma mulher: frustração pela imposição de gênero e decisão de abandonar os modelos impostos para mulheres e lutar pela sua terra — assim como Lavínia saiu da casa de seus pais e depois se juntou ao Movimento. Ademais, nesse novo mundo, após a conquista dos espanhóis, que prometiam civilização e melhorias, para ela, a sociedade continua a mesma: imposição de que mulheres devem ser esposas, cuidar dos filhos e de afazeres domésticos, e um grão senhor que promete um mundo melhor. O que, afinal, mudou de uma história para outra?

Para Lavínia, a indígena se torna sua força e resistência. Com todas as dúvidas e inquietações vividas pela protagonista, Itzá é o consciente que ajuda na decisão de participar do Movimento e como a luta pelo seu lugar pode e deve ser feita. A força de Itzá com a luta continua é tão forte que, em alguns momentos, Lavínia parece ceder seu corpo à sua presença.

A laranjeira não simboliza apenas um elemento mágico em uma narrativa. Ela simboliza uma costura entre o passado e o presente, a obstinação de um ser que morreu lutando contra a violência, a imposição e o “Deus” que prometia a ida para o céu. A morte não foi o fim. O espírito continua lutando, defendendo seu lar e sua terra.

Essa fusão entre os dois espíritos não conecta apenas o passado e o presente; revela também como essas estruturas da dominação colonial persistiram no mundo de Itzá, no mundo de Lavínia e, por extensão, no mundo atual.

A colonialidade, mais do que apenas a colonização feita pelos espanhóis depois de “descobrirem” a América Latina do século XV, seria os modos de poder, saber e cultura que persistem nas sociedades mesmo após o fim do domínio colonial. As estruturas de opressão, independente da cidade, estado e país, permanecem.

A “promessa” de colonização dos espanhóis foi, na verdade, uma maneira de violência simbólica, física e cultural para com aquilo que era desconhecido: aqueles seres sem roupa, que falavam uma língua estranha e cultuavam mais de um Deus, cultuavam partes da natureza. Toda essa exploração política e social do tempo de Itzá continuou no tempo de Lavínia. Com novas falas, novos métodos de se impor, novas nomenclaturas — dos grão-senhores aos ditadores —, mas com o mesmo objetivo: dominar. Além disso, Itzá e Lavínia são obrigadas a ter uma resistência maior por serem mulheres, demonstrando como a luta por uma tentativa de igualdade de gêneros não começou no século XIX com as ditaduras, mas sim desde antes da colonização. Portanto, será que os padrões utilizados no mundo atual realmente são diferentes desses que perpetuaram por séculos?

O realismo mágico, representado pela figura da laranjeira, e a fusão dessas duas mulheres que lutaram tanto pelos seus direitos e por integrar essa luta, registram e contam não apenas o passado, a história estudada nas escolas, mas também expõem diferentes formas de resistência que foram criadas, utilizadas e até mesmo derrotadas pelas estruturas de dominação. Porém, apesar de muitos fracassos, mortes e conflitos, a luta nunca deve ser esquecida, nunca deve ser temida, pois, se é um direito ter uma vida digna em um lugar digno, deve-se lutar por eles.

Apesar de a história estar situada em Fáguas, país criado pela autora, ela dialoga com os outros países da América Latina que passaram pela ditadura, como Argentina, Chile e Uruguai. Os conflitos apresentados pela autora estiveram presentes na vida de muitas pessoas, principalmente mulheres que escolheram lutar pelo seu país. Lutar por uma condição melhor, uma vida digna, ou fechar os olhos e continuar o impasse? E a luta foi a escolha.

A estrutura patriarcal não ficou na conquista dos espanhóis e nas ditaduras do século XIX. Itzá, Lavínia e muitas mulheres dos séculos XIX, XX E XXI continuam enfrentando pressões sociais para serem apenas as quem servem os homens. A resistência, antes de tudo, começa nas questões de gênero.

A colonização passou, a ditadura passou, e o que ficou após todos esses anos? A desigualdade, a violência e a imposição. Seja entre gêneros, entre classes diferentes, dentro do próprio país, entre países diferentes, tudo isso continua. Para alguns, o mundo parece diferente, não possui mais aquilo que foi imposto; para outros, os nomes mudaram, mas continuam os mesmos preceitos.

No século XXI, a luta e a necessidade de não esquecer e não silenciar a lutar continuam. Por isso, estudar e lembrar de tudo o que passou é vital. Aprender com as violências, entender o quão prejudicial foram para humanidade e continuar o enfrentamento dessas estruturas. Nas obras de Belli, o passado não está morto: pulsa nas veias do presente, como se cada laranja ingerida fosse um chamado à resistência.

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