Pimenta Nerd

A sua dose certa de Nerdice

Lídia Yuknavitch narra sua própria destruição e revolução. Ela desmorona durante as duas horas de filme. É doloroso assistir. Desconfortável. Quero evitar suas emoções. Não consigo. Seu ímpeto me impede. Nadadora desde criança, mantém seus demônios debaixo d’água. Durante anos, trabalha para espalhá-los ao mundo através do seu livro de memórias. Esses acontecimentos estão em “A Cronologia da água”. Adaptação feita do livro de mesmo título e baseada em uma história real.

O filme contém fragmentos da memória de Lídia que chegam sem sobreaviso. Flashes que ela joga para o espectador tentar entender. Ela nadando. Escrevendo em um caderno. Sangue e água escorrendo pelo ralo. Sua irmã abraçada a ela em uma banheira. Ela brincando com a irmã quando criança. Os ruídos das cenas são incômodos. Parecem banais, mas antecedem a angústia. O som da água, da respiração. Na ciência, o processo do cérebro acessar as informações armazenadas é chamado de ‘evocação’. E ele também pode produzir a mesma sensação do acontecido quando a lembrança é ativada. Os cheiros, a tremedeira, o medo. Lídia evoca um aborto espontâneo, os abusos sofridos pelo pai, os acessos de fúria pela dor e humilhação. Nada disso é mostrado explicitamente. As lembranças colocam quem assiste ao seu lado desde o primeiro momento. Quando escreve em um caderno, a transcrição das emoções realça os fatos.

créditos imagens: Filmes do Estação

Ela passa a ser refém do pai quando a irmã consegue fugir. Michael Epp, interpretando o estarrecedor Mike, é ameaçadoramente convincente. Intimidante, controlador. O horror dos fatos condiz com a persona dele. A depreciação da vítima, o impedimento da conquista de uma bolsa na faculdade, as fantasias sobre a filha. Importante mencionar quem legitima o algoz e o efeito que isso produz. Em uma lembrança, Lídia narra um pensamento: sobre como quase amou a mãe. A mãe que, foge do imaginário materno da sociedade e, ao mesmo tempo, representa um número avassalador de mulheres , teme a tirania do marido e é inerte aos crimes. Veja o trailer:

Mas a natação é um território onde Mike não tem o domínio .A água se transforma no ciclo de vida e morte para a Lídia. Os temores se misturam às profundezas da piscina e borram a escuridão de fora.  “Eu não me importava com medalhas… Eu me importava em como na água, um corpo é só um corpo. Um corpo poderia ser, até ouso pensar, meu”. Essas são as palavras da autora do livro em uma reportagem. A batalha de Lídia e de muitas vítimas também é pelo controle do corpo físico e da intimidade.

Nosso senso de segurança e pertencimento são construídos ainda na infância. E isso é a base de como vemos e nos relacionamos com o mundo. Lídia tem um rompimento nessa fase. Quando vai pra faculdade, sua euforia a leva para a permanência em vícios em drogas e bebidas. É abusiva com companheiros e tem uma relação nociva e, ao mesmo tempo, sem reservas com o próprio corpo. Para alguém como ela, não há limites, pois ela não sabe interpretar as barreiras visíveis. A violação tira isso do indivíduo. As crises de identidade são regulares. Em um dia se casa, no outro, engravida. Tem um bebê natimorto. Ela quer vê-lo, segurá-lo.  A forma como processa o luto é legítima e o faz do seu jeito. Uma passagem muito marcante. Ela não tem desprezo à vida. No nascimento, esperamos alegria. Na morte, o choro. E qual é a reação para alguém que quase vive?

Quando conhece o escritor e mentor Ken Kesey, posteriormente à autoria do livro “Um estranho no ninho”, em uma oficina de escritores iniciantes em uma universidade; é apresentada ao seu eu lírico, e é quando aprende a expressar sua ferocidade através de contos. Lídia não é alguém que precisa ser salva ou curada, talvez aqui a produção do filme derrape um pouco por mostrar uma redenção simplificada. Alguém como Lídia não tem um fim, ela continua vivendo entre altos e baixos. Mas o que mais impacta na leitura que faço dela, ainda que de forma incomum, é sua “autoabsolvição”. É um ato invejável perdoar a si mesma.

Dirigido por Kristen Stewart, “A Cronologia da água” estreia em 2 de abril pelo Filmes da Estação.

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