Pimenta Nerd

A sua dose certa de Nerdice

Na Grécia Antiga, o mito, uma narrativa de tradição oral, passada de geração em geração, que buscava explicar as origens do mundo e dos fenômenos naturais, além de ter como seus personagens principais os homens, os heróis, os deuses e os seres míticos, era considerado base da literatura grega, incorporando o dom do divino e tornando-se patrimônio comum entre os gregos.

Porém, seria errôneo afirmar apenas uma versão para cada mito pertencente à comunidade grega, já que sua cultura foi formada a partir da junção de culturas de povos anteriores, e são comunidades consideradas politeístas- que cultuam mais de um deus-, com cada comunidade transmitindo a sua interpretação.

‘”Quando se fala sobre ‘a mitologia grega’, cria-se a falsa impressão de que o mito é uno e imutável. Na verdade, os mitos gregos configuram um gênero de discurso extremamente aberto, cuja característica principal seria o admitirem versões diferentes no tempo e no espaço, de que recebemos apenas uma pequena parte, aquelas que foram escritas, pintadas ou esculpidas. Assim, seria mais exato falar de “mitografias” (no plural) (Brandão, 2005, p. 11).”

Derivada da literatura e do misticismo, a poesia épica arcaica traz as imagens heróicas e divinas por meio da oralidade, do canto e dos gestos. Com a utilização do metro hexâmetro datílico em seus versos, esses cantos eram compostos por gregos e recitados para gregos, sendo amplamente propagados dentro de cada comunidade. A palavra escrita e os livros sagrados sobre as mitologias surgiram muito tempo depois, já que, para não se esquecer dos ensinamentos, as palavras cantadas eram mais fáceis de absorver, representando a vida, a humanidade, o divino, a memória e a alma.

Os pioneiros da poesia épica, os educadores da Grécia Antiga, foram Homero, autor de Ilíada, Odisséia e dos Hinos Homéricos, e Hesíodo, autor de Teogonia e Os trabalhos e os dias. Esses autores, apesar de suas diferenças narrativas, ensinaram sobre os mitos, os deuses e os homens, e se tornaram objeto de estudo ainda recorrente: o primeiro pela sua enorme extensão de versos, sua qualidade e o questionamento sobre a autoria das suas obras mais famosas — também conhecida como “questão homérica”—, e o segundo pelo seu método didático de ensinar.

Em Os trabalhos e os dias, assim como em Teogonia, Hesíodo também se utiliza dos padrões do pensamento mítico para narrar sobre temas da origem do mundo, porém, com uma visão um pouco diferente. Se em Teogonia o autor parece mais próximo dos deuses, em Os trabalhos e os dias ele está mais próximo dos homens. Este poema, dirigido ao seu irmão, Perses, que se apoderou impropriamente da maior parte das terras de seu pai e despreza o trabalho, retrata o espaço agreste, com a rotina de um fazendeiro, e essa disputa familiar.

Os mitos abordados pelo poeta são o de Prometeu- o roubo do fogo e a criação da caixa de Pandora; o das Duas Disputas- a Boa Disputa, que é ignorada por Perses, e a Má Disputa, aquela que representa a divindade destrutiva, a hybris, a desmedida; e o das Cinco Raças- ouro, prata, bronze, heróis e ferro (essa última que ainda está em andamento). Além disso, escreve também uma pequena fábula para os reis, pois seu irmão espera o julgamento dos mesmos sobre as terras de seu pai. Assim como Nestor, ancião em Ilíada, Hesíodo utiliza os modos discursivos digressão, reflexão, moralização e exortação para construir a primeira pessoa em quase novecentos versos, como o estilo dramático quase nulo e o foco na justiça do trabalho, dois dos principais temas quando se fala da quinta raça.

Conforme as raças foram passando, a humanidade saiu de uma vida como deuses, livre de trabalhos, de preocupações e da velhice até uma vida de angústias e trabalhos, com a acentuação de uma injustiça, apesar de ainda haverem coisas boas. “Com esse interessante relato, Hesíodo pode abordar a tensão entre justiça e soberba e pressagiar a destruição da raça que a pertence, quando o mal triunfar.” (Campos, 2005, p. 27).

Em uma narrativa que sugere um conjunto de instruções agrícolas, como é o caso da segunda parte dessa obra, o domínio e a justiça de Zeus continuam com o objetivo de mostra o tamanho do poder pertencente ao deus desde a queda de seu pai. Além disso, alguns dos castigos da humanidade, como a caixa de Pandora, foram designados pelo Rei dos Céus, com o objetivo de punir aqueles que um dia quiseram ser como ele — os humanos.

Nessa obra, Hesíodo apresenta os males do mundo e o motivo de os humanos não desafiarem os deuses, principalmente o rei, Zeus, devido aos efeitos dessa ação, educando a sociedade sobre a organização dos cosmos e o respeito direcionado aos deuses. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *