Vamos deixar a melancolia e o misto da emoção da volta pra casa no fim do ano preencher o dia. Ou a noite. Ou seja lá que momento está lendo isso. Porque “Nosso natal em família” nos dá a estranha sensação de desejar e ter medo dos acontecimentos do ano que entra. E este natal pode ter sido o último que a família Balsano se reuniu na casa onde cresceu.
Long Island, Nova York, é o ponto de encontro anual dos balsanos. Americanos, mas um pouco italianos para o bem do nosso gosto. Uma família ítalo-americana se encontrando bastante alvoroçada no hall da matriarca Antonia. Tios, primos, avó, bichos de estimação; as tias[sempre elas] beijando crianças, irmãos se abraçando. Muito falantes, pratos caseiros saem da cozinha e, algo universalmente compartilhado, presentes ao redor da árvore de natal vão se amontoando. Aqui decido que será minha primeira cena favorita. Leva um tempo para acompanhar o ritmo do filme e, durante uns bons minutos, se aproximar da história. Não há um personagem principal, não tem dramas individuais. Mas poderia ser a minha ou a sua família comemorando – atualizações sobre empregos e crianças e adolescentes disputando o videogame. O ano é 2006. Os celulares ainda não transformaram a todos em antissociais crônicos. E mesmo que sua família não seja grande ou não tenha boas relações, esse é o retrato que você pinta do natal muitas vezes por causa da tv. Ou um natal que talvez deseje. A estética da filmagem, os detalhes da decoração natalina, a trilha sonora (inspirada no filme Scorpio Rising de Kenneth Angers), a velocidade dos acontecimentos; tudo lembra um filme caseiro ou um documentário feito na casa de pessoas que conhecemos, famílias que convivemos e que passamos a ser acolhidos nessas datas.

Em algum canto da cidade, há também um natal para aqueles que se perderam no caminho – ninguém diz, mas nem todos dão conta da vida adulta – a aparição de três jovens, aparentemente sem contexto, é a constatação de que o tempo passa e precisamos crescer. Para esses, o diretor dá o recado com a frase inicial “para os que estão perdidos, que encontrem o caminho de casa na noite de natal”. A noite de natal do diretor Tyler Taormina veio do vídeo de comemoração do casamento dos pais. A dinâmica familiar e a forma como as famílias celebram ou não a vida foram características essenciais para a criação da trama, segundo ele. A cena onde a família e os vizinhos correm para ver o caminhão de bombeiros decorado passando em alta velocidade é a minha segunda cena preferida. Há expectativa e contagem regressiva. O primo mais velho Bruce é voluntário no corpo de bombeiros e participa da procissão. Bruce, como percebemos durante o jantar, parece prever que esse, talvez seja, o último natal naquele formato, naquela casa. A passagem do veículo lembra o caminhão da coca- cola quando passa pelas cidades brasileiras nessa época. As pessoas filmam, ficam alegres. É algo rápido, parece simplório, mas é uma emoção que todas as idades parecem compartilhar.
Um ano novo está aí. Você sente a melancolia de ver o tempo passando rápido – muito rápido. E sabe que pode fazer uma pausa nas tensões familiares para apreciar quem está perto. Também sabe que mudanças vão ocorrer e que não dá pra congelar o tempo, apenas registrar – no celular ou na memória de longo prazo. Tudo está ali, nos discursos dos balsanos à mesa, na discussão entre os irmãos sobre o que fazer com a mãe que não está mais tão lúcida, nos adolescentes saindo discretamente para encontrar sua “tribo” e inventar novas formas de passar o natal… Pode ser que os balsanos tenham que achar uma nova forma de fazer acontecer essa noite. Assim como você.
Disponível com alguns cliques pelo canal da Filmelier+.
