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Intimidade, sofrimento e testemunho: uma leitura epistolar a partir de Amor de Perdição

Paralelos entre o epistolar clássico e o e-pistolar contemporâneo.

A literatura epistolar, gênero literário que utiliza cartas para dar vida à narrativa, confere um texto que se conecta diretamente aos seus leitores, permitindo-lhes acessar os pensamentos, sentimentos e dizeres dos personagens. Dessa forma, abre-se um espaço de identidade e de verossimilhança, concretizando as escolhas do autor no universo criado.

Segundo Brigitte Diaz (2002), uma das maiores pesquisadoras da epistolografia, a carta pode ser compreendida a partir de quatro elementos fundamentais: documento, texto, discurso e ação. No âmbito da literatura, a carta assume relevância tanto em relação às técnicas dos escritores quanto à recepção do público desse modelo. De acordo com a autora, “a carta é pensada e tratada como testemunho de primeira mão, que pode reviver o olhar sobre o passado e atender à expectativa de ‘verdade histórica, local e particular’” (DIAZ, 2002, p. 51). Portanto, a literatura de cartas confere uma alta verossimilhança ficcional e histórica

Porém, se, no início desse gênero, as histórias eram contadas apenas utilizando as cartas, com o passar dos séculos e as mudanças na literatura, o epistolar começou a ganhar novas formas de produção e novos veículos de circulação, dando origem ao romance epistolar, que obteve grande reconhecimento a partir do século XVIII. Para Lajolo (2002), o grande sucesso do romance epistolar ocorreu devido à semelhança com os leitores: assim como os personagens, os leitores também trocavam correspondências. Esse fator, juntamente com o tom didático das epístolas e o contato com o acesso ao mais profundo do personagem, cativaria cada vez mais o público, construindo um público sólido direcionado a esse gênero.

Com o surgimento da tecnologia, o epistolar ganhou novos suportes e técnicas narrativas, sendo lançado em modelos impressos e digitais, o que pode ser considerado como uma redefinição do já conhecido, recebendo o nome de e-pistolar, e conta com e-mails, mensagens de texto e outros gêneros de circulação presentes em narrativas contemporâneas.

Diante disso, a literatura epistolar de Amor de Perdição, escrito por Camilo Castelo Branco, é utilizada para elevar a conexão com os leitores e o aprofundamento da história de amor entre Teresa e Simão. Por meio das cartas trocadas, a intensidade do amor e o desejo de permanecerem juntos foram sentidos ao máximo pelos personagens e pelo público. Além disso, também serão apresentadas as obras Cartas Portuguesas, que possui o modelo clássico da literatura epistolar — história de sofrimento de amor contada apenas por cartas—, e Me leve com você, que apresenta o novo conceito de literatura epistolar — o e-pistolar, nesse caso, história de sofrimento entre dois irmãos contada através de e-mails.

As cartas de Amor de Perdição

A obra literária Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, apresenta a trágica história de amor de Simão e Teresa. Impedidos de cultivarem seu amor por suas famílias serem consideradas inimigas vitais, os personagens utilizam as cartas para expressarem seus sentimentos e se comunicarem. Apesar de todos os empecilhos que foram encontrados pelo caminho — a proibição do pai de Teresa e sua ida para o convento; os ataques contra Simão e o afastamento de sua amada —, as cartas foram o meio que encontraram para manter o amor vivo.

Trocada sem a desconfiança dos pais de ambos os protagonistas, a correspondência aparece, na maioria das vezes de forma integral, durante toda a narrativa, simbolizando as diferentes fases pelas quais passaram: quando o pai de Teresa descobre o amor da filha, a dor do afastamento, a tentativa de manter-se em contato e juntos e, por fim, a entrega à morte, adoecidos pela distância e pela saudade, já que não poderiam mais viver o tão sonhado amor.

A primeira carta apresentada na obra é sobre a aflição de Teresa, já que seu pai descobriu que está apaixonada pelo filho de seu maior inimigo, e o desejo de salvar seu amado.

“Meu pai diz que me vai encerrar num convento por tua causa. Sofrerei tudo por amor de ti. Não me esqueças tu, e achar-me-ás no convento, ou no céu, sempre tua do coração, e sempre leal. Parte para Coimbra. Lá irão dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome hás de responder à tua pobre Teresa (BRANCO, 2015, p. 23).”

Durante todo o livro, Simão e Teresa demonstram aflição em estarem separados. O medo de acontecer algo com Simão persegue Teresa por toda a estadia no convento, acreditando que seu pai e seu primo Baltasar, o qual não aceita que a prima está apaixonada pelo filho do inimigo do tio e que deseja imensamente casar com ela, já estimulado pela aprovação de seu — talvez — futuro sogro; e o medo de não ver mais Teresa está com Simão por toda a sua agonia, já que sua amada continua sendo levada para longe mesmo que ele chegue tão perto.

Para as últimas cartas de Simão e Teresa, o que resta é a tristeza profunda e a desistência. Os dois compreendem que não conseguiram ficar juntos e acolhem a morte, ainda com pensamentos e coração pertencente a que realmente amam. A amargura e a aceitação tomam os amantes por completos e toda essa mistura pode ser sentida através de sua escrita.

Na carta de Simão,

“Não esperes nada, mártir — escrevia-lhe ele. — A luta com a desgraça é inútil, e eu não posso já lutar. Foi um atroz engano o nosso encontro. Não temos nada neste mundo. Caminhemos ao encontro da morte… Há um segredo que só no sepulcro se sabe. Ver-nos-emos? Vou. Abomino a pátria, abomino a minha família; todo este solo está aos meus olhos coberto de forcas, e quantos homens falam a minha língua, creio que os ouço vociferar as imprecações do carrasco. Em Portugal, nem a liberdade com a opulência; nem já agora a realização das esperanças que me dava o teu amor, Teresa! Esquece-te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas não aqui (BRANCO, 2015, p. 183).”

Na Carta de Teresa,

“Morrerei, Simão, morrerei. Perdoa tu ao meu destino… Perdi-te… Bem sabes que sorte eu queria dar-te… e morro, porque não posso, nem poderei jamais resgatar-te. Se podes, viva; não te peço que morras, Simão; quero que vivas para me chorares. Consolar-te-á o meu espírito… Estou tranquila. Vejo a aurora da paz… Adeus, até ao céu, Simão (BRANCO, 2015, p. 183-184).”

Diferente do epistolar puro, no romance epistolar há um narrador irônico completando a lacuna da correspondência e apresentando para os leitores a concretização que ocorre através das cartas. O segredo delas intensifica o sofrimento e a paixão, deixando claro que um não consegue ficar longe do outro.

As cartas, além de contarem partes da história, intensificam o caráter trágico e fatalista do romance, apresentando uma subjetividade que atua contra as famílias separatistas. Elas sustentam o amor dos dois, àquele que não é possível viver. Juntamente com a morte dos personagens, a vitalidade do amor vai enfraquecendo aos poucos. Diferentemente de D. Pedro I e Inês de Castro, em que o amor foi o mais forte após a morte na tradição literária e mítica, assim como escreveu Herberto Helder em seu conto Teorema (2005), os corpos de Simão e Teresa começaram a desintegrar junto com o amor. A angústia, raiva e tristeza tomaram os corpos. Adoecendo aos poucos, com nenhuma probabilidade de ficarem juntos, o amor resistiria? Ele afundou junto ao o corpo de Simão no oceano. Apesar das cartas registrarem o declínio desse amor, a verossimilhança se mantém: as cartas continuam sendo utilizadas para apresentar verdades históricas para o leitor, fazendo-o sentir, sofrer e acreditar até o final da narrativa. Além disso, os conceitos apresentados por Diaz (2002), um testemunho íntimo que revive o passado com o objetivo de atender expectativas, e Lajolo (2002), uma leitura sentimental que se conecta com o público, permanecem até o último suspiro da narrativa.

Outras literaturas epistolares — do século XV e do século XXI

A literatura epistolar é um gênero que engloba múltiplas facetas da história por correspondência. Em seu início, as obras epistolares eram compostas apenas pelas cartas, sem qualquer outro modelo inserido ou a presença de um narrador que fornece informações que as cartas não revelam. Os estudos de Diaz (2002) e Lajolo (2002) explicam o surgimento da literatura epistolar como uma prática documental e social, que foi estruturada exclusivamente pela troca de correspondências e, posteriormente, acabou adquirindo uma forma ficcional, que se tornou ainda mais famosa com a consolidação do romance epistolar no século XVIII.

As Cartas Portuguesas, lançada em 1669 e com uma série de dúvidas acerca de sua autoria, é uma obra que pertence a literatura epistolar pura. As cinco cartas foram escritas pela freira Mariana Alcoforado e destinadas ao oficial francês Noël Bouton de Chamilly, que a deixou após a guerra que estava ocorrendo no território português terminar. Nestas cartas, Mariana derrama todas as suas dores de ter sido deixada pelo amado, abandonada no auge da paixão.

Sem um narrador para trazer informações complementares, a obra é constituída apenas pelas cartas, que, ao serem absorvidas e sentidas pelos leitores, estes entendem a dor que percorreu longos dias vividos pela freira. Assim como Teresa, Mariana viveu o amor na máxima intensidade, tentando, a todo momento, ter o seu amado novamente em sua vida. A subjetividade feminina é totalmente imersiva nessas duas personagens: quem as lê sente, vive e deseja o amor novamente em sua vida. A intimidade radical cria uma entrega absoluta ao sentimento e sofrimento amoroso.

“Considera, meu amor, a que ponto chegou a tua imprevidência. Desgraçado!, foste enganado e enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão de que esperaste tanto prazer não é agora mais que desespero mortal, só comparável à crueldade da ausência que o causa. Há de então este afastamento, para o qual a minha dor, por mais subtil que seja, não encontrou nome bastante lamentável, privar-me para sempre de me debruçar nuns olhos onde já vi tanto amor, que despertavam em mim emoções que me enchiam de alegria, que bastavam para meu contentamento e valiam, enfim, tudo quanto há? (ANDRADE, 1977, p. 23).”

Na obra Me leve com você, lançada em 2022 e escrita por David Levithan e Jennifer Niven, dois irmãos, Beatrix e Ezra, são o principal apoio um do outro, principalmente após sua mãe ter se casado novamente. Porém, um dia, Bea vai embora de casa, e agora Ez está desprotegido contra os adultos. Com um misto de saudade, raiva e preocupação, um endereço de e-mail misterioso foi a única coisa que restou para os irmãos poderem se corresponder.

“Assunto: Você. Sumiu.

De: e898898989@gmail.com

Para: b989898989@gmail.com

Data: seg., 25 de mar. 12:12 (Horário Padrão do Leste)

Querida Bea,

Eu não estou com raiva de você. Eu não te culpo. Mas acho que você me deve uma explicação.

Sei que você foi embora. Todos sabemos que você foi embora. Acho que, no instante em que a mãe entrou no seu quarto e viu como você o deixou, nós soubemos. Que belo foda-se para ela e para o Darren: uma cama perfeitamente arrumada. Como se ela nunca tivesse sido usada. Como se você nunca tivesse posto os pés aqui. Quantas vezes eles gritaram com você para que arrumasse a cama? Quantas vezes você disse que não arrumaria? (Dica: A resposta para as duas perguntas é a mesma.) E agora: Você deixou tudo arrumadinho, nos trinques.

Nenhum bilhete. Nenhuma palavra.

Eu sei. Eu procurei. (LEVITHAN e NIVEN, 2022, p. 9).”

Assim como explica Joanita Baú de Oliveira, em sua tese JOGO DE CARTAS: a narrativa epistolar em livros (2020), hipertextos e videojogos, a inserção de gêneros virtuais em obras impressas é explicada com base na grande circulação dessas pela sociedade. Essa interação entre o impresso e o virtual redefiniu o gênero epistolar, que agora pode ser conhecido como e-pistolar (como o e-mail). A história de Bea e Ez é contada através dos e-mails que os dois trocam secretamente, já que seu padrasto não está feliz com o sumiço da enteada. Nesses e-mails, diálogos, confissões, sentimentos e dores são expostos, deixando uma mensagem que pode parecer tão simples cheia de sentimentos.

Ainda que não se trate de uma história de amor como as outras duas obras, o sofrimento é o mesmo: o afastamento de uma pessoa amada — nesse caso, o amor entre irmão. Ez, que tinha sua irmã presente para tudo — o afastamento da mãe, as brigas e agressões do padrasto, os problemas que enfrentava na escola —, agora tem que lidar sozinho com todas as dificuldades de sua vida. Os e-mails são uma forma de ter a irmã por perto, manter-se agarrado à esperança de que ela irá voltar, mas também são uma forma de colocar para fora o sofrimento, a saudade e a necessidade de ter a irmã novamente em sua vida.

Para Bea, o sofrimento é o mesmo: ir embora cheia de incertezas e não poder levar consigo o seu maior confidente, o seu maior apoio, sua maior esperança. Sabendo que não conseguiria cuidar do irmão, ela o deixou em casa, mas a dor transmitida por meio das correspondências é a mesma: a saudade, o sofrimento, a raiva, a esperança.

As diversas facetas da literatura epistolar

A literatura epistolar que está presente nos três modelos — epistolar puro, romance epistolar e e-pistolar — cumpre o mesmo objetivo: trazer a intimidade e os sentimentos dos personagens, conectando-se com o leitor e o fazendo ser transportado para dentro da história, como se estivesse vivendo e vendo aquilo com seus próprios olhos. Nas Cartas Portuguesas, o gênero puro traz um testemunho emocional na sua maior intensidade e uma subjetividade máxima, causando uma estreita aproximação entre o público e a personagem. Em Amor de Perdição, o romance contado pelo narrador se mistura às cartas, elevando ainda mais o caráter fatalista e trágico da obra e do amor vivido pelos amantes. Esses dois campos literários apresentam o início e o auge do epistolar, assim como a sua evolução, porém, preservando as características principais do gênero.

Ao chegar à contemporaneidade, o epistolar ganhou uma nova forma, novos veículos para ser difundido. Em Me leve com você, mesmo com uma urgência característica dos e-mails e das mensagens de texto, a necessidade de confessar os sentimentos continua a mesma, permanecendo com o principal objetivo. Assim, as cartas, independente do século veículo ou pessoa a qual é direcionada, possuem o mesmo fundamento: ser um espaço de resistência emocional, e até mesmo servir de aprendizado. Todos são registros, registros que podem ser repassados para a família, filhos, netos, irmão. Todos levando uma carga, simples palavras que contam histórias.

Portanto, a literatura epistolar continua como uma área de estudos relevante, principalmente pela adição de uma nova fase que contempla diferentes tipos de endereçamentos, suportes e maneiras de expressar os sentimentos. Ela traduz a necessidade humana daquilo que não pode ser silenciado, não pode ser esquecido e não pode ser deixado para trás. Essa escrita tão íntima, tão direcionada ao leitor não apenas é uma forma literária, uma forma de colocar ideias no papel: ela é uma forma de existência afetiva, colocar para fora algo que não pode conter.

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