Você conhece a obra Viagens na minha terra, de Almeida Garrett?
O livro de Almeida Garrett apresenta uma viagem de Lisboa a Santarém, que é geográfica, histórica e digressiva (divaga sobre vários temas). A ficção é escrita dentro do contexto da época, ou seja, do século XIX. Ela é baseada em viagens do Garrett, mas não necessariamente, autor é igual a narrador. Trata de noções de posse, pertencimento e identidade portuguesa, como é perceptível em seu próprio nome. Possui uma ampla bagagem cultural, utilizando várias obras para fazer referências intertextuais, como: Odisseia (Homero), Os Lusíadas (Luís de Camões), Dom Quixote (Miguel de Cervantes) e Viagem ao redor do meu quarto (Xavier de Maistre). Logo, se você gosta de alguma delas, talvez se interesse por Viagens na minha terra.
Apesar de publicada em folhetim e de ser detentora de um sabor de crônica da imprensa do momento, a narrativa que contém narrativas não foi escrita ao correr da pena, tendo em vista que tudo se conecta. Focando em um único tema, ela traça diferentes caminhos. Tudo é muito bem pensado e estruturado pelo autor português. Existe uma reflexão profunda por trás da viagem, ou melhor, das viagens. Há um planejamento arquitetônico nas construções das histórias. A ironia (não no sentido cômico de algo, mas sim, no de expressar mais de uma ideia ao mesmo tempo) permite a dialética (diferentes pontos que dialogam entre si).
Pertencente ao Romantismo, o escrito se mostra muito romântico, mesmo dizendo não ser. O romance do século XIX era a epopeia possível do burguês português. Era épico na medida que dava para ser épico. No entanto, esse atinge vários leitores, vários públicos (com bagagem cultural ou não, com ensino formal ou não). Uma mudança de endereçamento é realizada constantemente, se dirigindo a quem lê ora como “caro leitor”, ora como “cara leitora”. Tal troca de estilos não é uma substituição, mas sim, um acúmulo de conhecimento do escritor.

As oposições entre os personagens que aparecem nesse universo literário (Frei Dinis e Carlos, Joaninha e Georgina…), na verdade, possuem sempre um ponto de encontro, se somam mais que se anulam. E é esse jogo dialético, contido na imagem de um país que olha sempre para o passado, que a obra de Garrett retrata.
E aí, se interessou por ler Viagens na minha terra, obra que Machado de Assis leu e se inspirou?
Espero que sim, mesmo que apenas por esse último comentário!
Link da primeira imagem: https://www.amazon.com.br/Viagens-Minha-Terra-Almeida-Garrett/dp/8572325956/ref=asc_df_8572325956?mcid=211a05f7400637008dd4a2bffa082f4d&tag=googleshopp00-20&linkCode=df0&hvadid=709980958442&hvpos=&hvnetw=g&hvrand=13507698168527324341&hvpone=&hvptwo=&hvqmt=&hvdev=c&hvdvcmdl=&hvlocint=&hvlocphy=9100783&hvtargid=pla-879602903405&psc=1&language=pt_BR&gad_source=1
Link da segunda imagem: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/12/almeida-garrett-fez-retrato-sardonico-de-portugal-com-incesto-e-disputas-politicas.shtml
