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Dentro das histórias formadoras de um território, a verdade histórica, por algumas vezes, pode se misturar com o mito, principalmente quando se trata de narrativas que, mesmo após muitos séculos, são responsáveis pela criação de uma identidade e cultura local. Em Portugal, a relação afetiva com o passado – esses mitos que percorrem gerações como verdades históricas – transforma os fatos em símbolos duradouros a partir da ficcionalização.

Um dos mitos formadores da história de Portugal é o amor de Dom Pedro e Inês de Castro. Dom Pedro 1º — que não é o nosso Dom Pedro, já que o nosso é o Dom Pedro 4º —, herdeiro de Portugal, deveria se casar com uma mulher nobre e que daria continuidade a sua linhagem. Seu pai, Afonso 4º, escolheu a Dona Constança de Castela para ser a esposa do filho e manter a família de Castela no trono, já que, na época, ainda não existiam Portugal e Espanha, mas sim os reinos de Castela e Leão, e as duas linhagens ficavam separadas. Porém, Pedro se apaixonou pela dama de companhia de sua esposa: Inês de Castro, uma nobre nascida no reino de Leão

A fim de manter a influência da família de Inês e o reino de Leão afastados, Afonso ordenou o exílio da dama. Mesmo separados, o amor de Inês e Pedro continuou crescendo cada vez mais, cheio de dor, saudades e carinho. Com a morte de Dona Constança, Inês retornou de seu exílio e finalmente os caminhos pareciam se encontrar: Pedro já havia se casado, tido filhos e agora estava viúvo, seu dever com a pátria estava cumprido e ele poderia finalmente ser feliz — ou não.

Pressionado pelo medo e por seus conselheiros, o Rei Afonso mandou matar Inês de Castro, evitando ameaças para seu reino. Quando Pedro subiu ao trono, fez tudo para honrar sua amada: matou seus assassinos, fez uma coroação e a tornou rainha de Portugal, e construiu seu túmulo ao lado do seu no Mosteiro de Alcobaça. Assim, nasceu o mito de Inês e Pedro.

A história de Inês de Castro e Dom Pedro I é um mito sobre o amor eterno: o amor vence a morte, quebra a barreira dos corpos e passa para a alma, que está viva e perdura com essa conexão até os dois se encontrarem novamente.

No texto criado por Herberto Helder, “Teorema”, o autor dá voz ao assassino da amada, Inês de Castro, e explica os seus motivos para ter assassinado o amor verdadeiro do rei: a necessidade de transformar o amor verdadeiro em um sentimento eterno. Assim como ele afirma: “Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro sabe-o”, o amor entre os amantes deveria sobreviver pela eternidade, ser vivido com toda intensidade, mesmo que ela devesse morrer para isso. A dor, a perda e o destino trágico foram as características essenciais para a concretização espiritual, para a concretização histórica desse amor.

No texto de Ana Luísa Amaral, “Inês e Pedro: quarenta anos depois”, a autora retrata os amantes já no fim da vida, vivendo o amor juntos. Porém, este texto, assim como muitos outros que vieram após a morte de Inês, é um mito sobre a história vivida pelos dois. Essa criação só foi possível após a morte e a concretização do amor, que serve como inspiração nacional. Mesmo que pareça que os dois viveram até o final da vida, como nos trechos “É tarde, Inês é velha” – sátira do ditado: “ É tarde, Inês é morta” – e “Inês come, em sossego, uma papa de aveia”, a criação não teria ocorrido pois não haveria mito. A simbolização do amor permitiu a criação de obras sobre esse amor, mantendo ele vivo pela eternidade.

Tanto Helder quanto Amaral trazem ficcionalizações que mantêm o mito aceso, levando essa história como um símbolo da identidade nacional. Enquanto um fala sobre o assassino, a outra fala sobre a continuidade da vida, mas os dois eternizam algo que já aconteceu: a morte. Inês não viveu até o final da vida com Pedro, o assassino não matou Inês para salvar o amor, mas a linha tênue entre mito e verdade permitiu a inserção de novos fatos, novas histórias, um mesmo amor.

Porém, será que o mito realmente será eterno para as pessoas? Pois já é tarde, Inês é morta.

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