Você conhece as Cartas portuguesas, de Mariana Alcoforado?
A ficcionalização de um acontecimento histórico sempre foi uma constante em Portugal. A história e o mito sempre caminharam juntos para a construção de uma identidade nacional. Os símbolos/arquétipos trazidos por essa dialética de história e mito pintam o quadro nacional dos portugueses e eternizam um sentir comum, coletivo, que une uma pátria.
A obra Cartas portuguesas (1669) conta sobre um amor não correspondido. Ela é elaborada através da junção das cartas de uma freira portuguesa, Mariana Alcoforado, que escrevia para seu amado que a deixou em Portugal e retornou à França. Após viver uma curta história de amor com ele, que foi enviado a Portugal no momento da Guerra de Restauração, ela é deixada. Nas cartas que escreve depois dessa perda, muito mais do que tentar conseguir uma resposta ou uma notícia sobre ele, sobre esse amor, ela procura entender os próprios sentimentos que a dilaceram. Ela fala mais com ela mesma do que com qualquer outra pessoa.
Mesmo que publicado na França, a obra adentra o imaginário português, constituindo uma história de amor que vira símbolo, vira verdade, vira íntima e vira mito. Tal mito se constrói tanto em cima da identidade de Mariana, que muitos desacreditam ser a verdadeira autora das cartas (se questionam sobre a possibilidade de uma mulher ser capaz de se expressar tão bem e produzir textos profundamente românticos, além de poéticos), quanto do grandioso jogo entre ficção e verdade que a história se torna para Portugal.
A tessitura literária dessa mulher expressa dor e um simultâneo desejo de sair da inércia em que seu ser se encontra. Preferindo, muitas vezes, a morte carnal, ela não consegue deixar o amor durante muito tempo. Apenas na última carta, ela consegue ou, pelo menos, decide abandonar o amado, embora admita que ainda pensa nele. Supondo estar louca, a portuguesa se deixa levar totalmente por um intenso amor. Em trechos das cartas, como: “Não sei o que sou, nem o que faço, nem o que quero; estou despedaçada por mil sentimentos contrários” e “Bem sei que te amo perdidamente”, Mariana comprova um pouco desse dilacerante amor, que, futuramente e eternamente, saciará Portugal, atravessando gerações de uma nação.
E aí, se interessou por ler as cartas românticas com autoria de Mariana Alcoforado?
Espero que sim!
Link da imagem: https://www.amazon.com.br/Cartas-portuguesas-29-Mariana-Alcoforado/dp/8525406406
