Pimenta Nerd

A sua dose certa de Nerdice

A Sátira Pandêmica de Ari Aster

Eddington chega à 49ª Mostra de São Paulo como o mais novo filme de Ari Aster, conhecido por suas polêmicas e abordagens inquietantes, como em Hereditary (2018) e Beau Tem Medo (2023). Dessa vez, Aster tenta brincar com a ideia de uma sátira situada durante a pandemia, algo que poderia render uma reflexão profunda ou, no mínimo, uma experiência cinematográfica cativante. Contudo, Eddington acaba sendo um filme pretensioso, sem rumo claro e, infelizmente, mais desconcertante do que provocador.

A Sinopse: O Conflito de Dois Homens em Meio ao Caos

Eddington se passa em maio de 2020, durante os primeiros meses da pandemia, em Eddington, uma pequena cidade do Novo México. O filme gira em torno de um conflito entre um xerife e um prefeito, que, em meio à tensão social e as incertezas da pandemia, acabam envolvendo a comunidade local em uma disputa que revela mais sobre a natureza humana do que sobre a realidade do momento histórico. A narrativa, porém, não entrega o impacto esperado.

A Visão de Ari Aster: Criatividade e Mundos Desconfortantes

Ari Aster tem um talento inegável para criar mundos imersivos, muitas vezes desconfortáveis e distantes da nossa realidade cotidiana. Com uma cinematografia impressionante, Eddington consegue capturar a sensação de um mundo que já vive no limite, um universo disfuncional e opressor. Isso não é novidade em sua filmografia, como vimos em Hereditary, onde o desconforto e o medo psicológico são elementos centrais. No entanto, neste novo filme, a proposta de usar a pandemia como pano de fundo para uma sátira parece mais forçada do que realmente crítica.

Joaquin Phoenix e Emma Stone: Uma Dinâmica Solitária

Joaquin Phoenix, que parece ter enfrentado uma sequência de escolhas questionáveis após o sucesso de Coringa (2019), continua a explorar papéis complexos, mas com pouca profundidade em Eddington. Seu personagem, Joe Cross, vive uma existência solitária, e sua atuação, embora competente, parece perdida dentro de um roteiro que não sabe onde quer chegar. Emma Stone, como Louise, também assume uma postura isolada, mas a interação entre os dois personagens é superficial, sem realmente causar um impacto emocional no público.

Outro personagem relevante é Down, interpretado por Deidre O’Connell, que se transforma em uma conspiracionista. Sua participação toca em um ponto atual importante: a proliferação de teorias conspiratórias nas mídias sociais, como YouTube e Facebook. Esses elementos, embora relevantes no contexto pandêmico, são abordados de maneira rasa e, em alguns momentos, até excessivamente caricata.

Mídias Sociais e Conspirações: O Peso da Realidade Atual

Uma das abordagens interessantes de Eddington é a maneira como lida com as mídias sociais e o descontentamento popular que se intensificou durante a pandemia. A personagem de Deidre O’Connell, com sua obsessão por conspirações, faz uma crítica óbvia à polarização e à desinformação que se espalhou rapidamente pela internet nesse período. No entanto, a forma como o filme lida com isso é algo confuso e, em muitos momentos, parece mais um comentário superficial do que uma análise verdadeira.

Eddington: Um Filme Entediante e Vazio

Se fosse necessário resumir Eddington em uma frase, seria: “Entediante e vazio”. O filme falha em entregar uma crítica social coerente e se perde em uma narrativa sem foco. O próprio tom do filme é dado logo na primeira cena, onde vemos um senhor caminhando sozinho pela cidade, o que logo define o clima de apatia que predomina por toda a obra. A sensação de isolamento, que deveria ser o grande eixo da história, acaba por se tornar o maior desafio do filme: manter o público engajado.

Embora a cinematografia de Aster continue sendo de alto nível, não é suficiente para sustentar um filme que, em sua maior parte, parece arrastado e desconexo. A tentativa de Aster de transformar a pandemia em uma sátira parece mais uma desculpa para uma história que não tem a profundidade ou a crítica que poderia gerar um debate interessante.

Conclusão: Uma Sátira Sem Graça e Sem Foco

Eddington poderia ter sido uma reflexão afiada sobre a pandemia, o caos social e as disparidades humanas que se tornaram ainda mais evidentes durante esse período. No entanto, o filme se perde em suas próprias pretensões e não consegue entregar a crítica profunda ou a reflexão que se esperava de um diretor como Ari Aster.

Para aqueles que esperavam mais um filme provocativo e perturbador, como o excelente Hereditary, a decepção será grande. Eddington é um filme que, infelizmente, se sente desconfortável sem ser eficaz, e sua sátira falha ao não conseguir conectar os pontos da realidade com a ficção de forma significativa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *