Você conhece Francisco Otaviano e sua crônica-folhetim?
A experiência urbana é fundadora da escrita. A cidade moderna do século XIX, que vai sendo, cada vez mais, impactada pelo surgimento das inovações técnicas, é a principal tópica (tema recorrente) do texto publicado no rodapé da primeira página do jornal, em esquema de linha de montagem, a crônica-folhetim. Tal tipo textual que possui “tempo” em seu nome (“crônica” tem origem no termo grego chronos), ultrapassa o intimismo do diário e constrói a infância do gênero crônica, no Brasil. Com a finalidade de ser breve e entreter seus leitores – facilidade programada –, bebe muito da modernidade problemática da sociedade brasileira de tal época, representando-a através de um flagra, ao observar a poeira dos dias modernos, ou seja, as nuances e tensões da vida ao rés do chão, do nível do pedestre. Os acontecimentos vistos, e escutados, nas ruas, quando mínimos, interessam ao atento cronista que se coloca no nível da realidade que aborda, preenchendo o zigue-zague de seus textos que não possuem títulos e são escritos sob pressão, em decorrência da acelerada rotina do jornal. Criando assim, um retrato social, cultural, além de histórico.
Isso é perceptível, na crônica-folhetim com autoria de Francisco Otaviano, publicada em dois de abril de mil oitocentos e cinquenta e quatro, na coluna A semana, sem título, por exemplo, quando dentre uma digressão e outra, há uma comoção da cidade por conta da chegada da iluminação à gás. Um trecho que comprova isso é: “Toda a cidade correu à rua do ouvidor para apreciar a nova iluminação. Encolhidas e tristes, as últimas torcidas dos lampiões de azeite, viam passar as ondas desta população inconstante que adora as novidades e se esquece dos serviços antigos. Ninguém fazia caso daquelas relíquias do tempo passado, ninguém tinha olhos e elogios senão para os lampiões à gás!” (OTAVIANO, 1854).
Sob esse viés, a crônica presa ao folhetim – caráter informativo/jornalístico e literário –, ao retratar o real do espaço urbano, de maneira fugaz, começa a desempenhar também uma função didática, inserindo explicações referentes ao funcionamento das inovações técnicas advindas do cenário de modernidade nacional (manual da área urbana), como a iluminação pública, citada no texto do cronista e poeta Otaviano, e os bondes, retratados na fundamental crônica-folhetim Bondes elétricos – descrição da vivência em tais transportes, que cita os nomes das ruas por onde eles passavam –, de Machado de Assis.
Portanto, como no trecho de Otaviano citado, o anúncio do futuro e o registro da morte do passado, intrínsecos à apresentação de um entusiasmo pelo progresso, e simultaneamente, de uma nostalgia pelo antigo cotidiano (contraste), são os temas abarcados pela crônica-folhetim, caixa de texto que passa em semana (forma cronológica) sua central visão: o cisco da experiência da vida urbana.
Link da imagem: https://blogdabn.wordpress.com/2017/06/26/fbn-i-homenagem-26-de-junho-de-1826-nasceu-francisco-otaviano/
