Você conhece Clarice Lispector?
“Mas a casa continuava entre trevas e sapos. E, no jardim de perfume, os jacintos estremeciam imunes.” (LISPECTOR, 2020). Esse trecho de Clarice Lispector foi retirado do conto “Mistério em São Cristóvão” – indicação de leitura de hoje –, pertencente ao volume Laços de família, que narra uma família em equilíbrio, ameaçada somente pelo perigo exterior que estoura a bolha e a calmaria momentânea, trazendo a interferência de outra realidade.
Ambientando mistérios e exalando perfume, o jardim oferecia a oportunidade de fuga de uma cadeia cíclica. Essa ameaça provinda da externalidade, nada mais é do que uma transgressão da monotonia vivida da porta para dentro, como é possível reparar no trecho: “Nada havia de especial na reunião: acabara-se de jantar e conversava-se ao redor da mesa, os mosquitos em torno da luz.” (LISPECTOR, 2020).
Apesar da curta narrativa tratar o simples cotidiano, a mudança e instabilidade são inerentes, construindo uma (in)tensa crítica relacionada à ideia de harmonia. O medo do movimento inesperado dos dias e da complexidade gera um exorbitante abismo, uma profunda ilusão. A vida não é estável. Para alguns personagens, o jardim representa uma condição perigosa e uma quebra do conforto assegurado pela unissonância, no entanto, ele se mostra como um local real, que proporciona a entrada de novas possibilidades e a ruptura da repetitiva configuração das atividades de um lar.
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Link da imagem: https://www.amazon.com.br/FAM%C3%8DLIA-EDI%C3%87%C3%83O-COMEMORATIVA-Clarice-Lispector/dp/6555320249
