Temos medo de reconhecer, mas passamos a vida tentando nos encaixar em algum grupo ou lugar. Mas as fases da vida mudam, as casualidades nos rondam e nos deslocamos. Às vezes, para muito longe. Distante dos elos que achamos ter encontrado ou que temos como garantidos. Sem perceber, em “Dormir de olhos abertos”, Xiao Xin, Fu Ang e Kai tentam criar novos laços morando no Brasil sem se desfazerem de alguns, que entrelaçam sua cultura, identidade e tudo o que conhecem. Mas chegam a um denominador comum entre imigrantes: não pertencem a lugar algum.
A taiwanesa Kai chega a uma Recife quente, próximo à praia, e se depara com vestígios de uma pequena comunidade chinesa e taiwanesa. É onde conhece Fu Ang, dono de uma loja de guarda-chuva. É o primeiro momento em que Kai não se sente um peixe pequeno em um grande aquário. Logo ela descobrirá que não só falam o mesmo idioma, mas compartilham a estranheza que os acompanha de não pertencerem a nenhum lugar. Um dia retorna à loja, mas não a encontra mais. Nem Fu Ang. E se depara com cartões-postais que vão ser descartados pelo novo dono da loja. Veja um trecho do trailer:
Através dos cartões, somos apresentados a Xiao Xin, uma jovem chinesa que vem da Argentina morar com os tios que são donos de um negócio com produtos da China. É ela quem os escreve e narra a maior parte das próximas cenas. O apartamento em que moram, de classe média alta, abriga também trabalhadores asiáticos sem moradia fixa e documentos, incluindo Fu Ang. O que acompanhamos aqui é uma linha do tempo anterior à chegada de Kai na cidade. A visão é de um estrangeiro que chega a outro país. As percepções, nem sempre positivas, da língua; os apontamentos sobre o comportamento dos locais, a comparação com a comida da cidade natal. E até a nova sensação olfativa que é apresentada a esse imigrante: o cheiro das pessoas.Em uma cena, o personagem Yang Zong reclama que o cheiro de Fu Ang está parecido com o dos brasileiros, e ele responde inocentemente “será que meu cheiro vai voltar ao normal quando voltar pra casa?”.

Tanto Xiao Xin quanto os funcionários da tia se mudam constantemente. Vão embora assim como chegam – de repente. Ela escreve em espanhol com receio de esquecer o idioma. Eles mencionam a China constantemente, lembram como as ruas do país estão sempre em obras e que cada dia é diferente por lá; mas no Brasil, todos os dias são iguais. O tom de melancolia na voz está presente o tempo todo. Voltamos à linha do tempo de Kai, onde ela visita os lugares mencionados por Xiao Xin nos cartões. Em um momento, encontra Fu Ang pela cidade. Os registros ligam os pontos entre eles, e o reencontro coloca todos no mesmo aquário.
O ritmo lento da filmografia estampa os sentimentos destes, que circulam pelo mundo sem objetivos e sem se aprofundarem com ninguém. Eles só transitam pela cultural local porque se veem como passageiros. Distribuído pela Vitrine Filmes, o filme está em cartaz a partir de 11 de setembro.
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