Você conhece a poesia de Adília Lopes?
Em Adília Lopes, verdade e ficção, tradicional e novo – como a pop art –, verso e prosa e autor e eu-lírico, são tensionados constantemente, gerando um efeito de questionamento sobre o conceito de poesia (tanto no que diz respeito à estrutura, quanto ao conteúdo) e os limites estabelecidos por ela. Seu universo poético, através da singularidade de cada poema, evoca constantes (entre)laços que impactam quem lê, seja pelo estranhamento ou pela atribuição de genialidade.
Tecendo-se um jogo bastante irônico, Lopes (máscara autoral, persona, pseudônimo) deixa perceptível que não há cartilha para fazer poema, indo contra à convenção anterior de manifestações artísticas que delimitam o fazer poético. Aspectos não antes vistos em poemas, que relacionam experiências de vida, leitura canônica e cultura de massa (cinema, arte, música, mídia), olhando para o considerado banal (dicção do simples feita de maneira simples) para muitos e mobilizando não só a esfera portuguesa, como também, toda uma cultura pop de distintos países, estão contidos em uma produção que utiliza a linguagem para dizer o não dito.
Uma brincadeira com as palavras, que ousa na inserção de trocadilhos – em exemplo, seu escrito intitulado Dobra, que marca reedições de seus poemas em “obra”, remetendo “a outra face”, “a outra parte” da autora –, permeia e faz de sua escrita, sarcástica e popular (principalmente, no Brasil). A mescla de gêneros (hibridismo) elaborada por uma poeta que leu muito, e que devido a isso, possuía um grande arcabouço cultural, se faz mais que presente nessa composição, embaralhando diário, autobiografia, ficção e poesia. Desde a memória até a inclusão de novas e múltiplas sensações, o estilo que nasce em cada poema, contempla.

Tal dobra que marca a poesia contemporânea portuguesa desata firmes nós, mostra novos lados, transcende o caminho, retoma sem continuar, apresenta uma constante série de partículas “re” (como redefinir) e infinitas possibilidades de transformar muralhas que isolam a felicidade, além da empatia. No desdobrar-se da linguagem, ela propõe uma nova forma de olhar que ensina a ver. Os próprios poemas, por meio de algo novo, quase invisível, propagam novas línguas e formulam atuais autossuperações da linguagem.
Assim, as contradições trazidas pela poetisa tentam superar um desconcerto, e por mais que indiretamente, as marcas e resquícios deixados pelo regime salazarista na sociedade portuguesa, por meio de um objeto que pode abordar o não abordado: a linguagem poética.
Confira ainda:
Link da primeira imagem: https://editoramoinhos.com.br/loja/umjogobastanteperigoso/
Link da segunda imagem: https://www.entre-vistas.pt/adilia-lopes-dobra/
