Pimenta Nerd

A sua dose certa de Nerdice

Mil novecentos e oitenta. O mundo passava por mudanças significativas na cena cultural e política. Artistas célebres surgiam sem imaginar que deixariam um legado através de músicas reflexivas e de protesto feitas por e para uma geração cheia de gás e de vida. No Brasil, recém saído da ditadura, as ruas ecoavam o grito de um povo que buscava se reencontrar com sua identidade após duas décadas de repressão e medo. O Brasil dos anos 80 era fullgás, como um tanque cheio de combustível, pronto para liberar energia. Como “Fullgás”, a música de Marina Lima e Antonio Cícero, o hit apresentado aos brasileiros em 1984 e que expunha os sentimentos dessa geração com uma batida pulsante e apaixonante.

“Você me abre seus braços. E a gente faz um país”. A canção virou tema da exposição “Fullgás: artes visuais e anos 1980 no Brasil” que está nos últimos dias no Centro Cultural Banco do Brasil e é dividida em 5 núcleos baseados em períodos significativos no Brasil de 1978 a 1993, intitulados por composições musicais conhecidas e representados por 200 artistas entre pintores, escultores, fotógrafos e desenhistas espalhados pelo Brasil. Elementos visuais da época também estão estampados em capas de discos, revistas, panfletos e objetos expostos. As transformações desses anos estão gravadas eternamente pelas mãos de quem absorveu os fatos ocorridos intensamente produzindo arte.

QUE PAÍS É ESTE

Com as Diretas Já, as ruas foram tomadas pela população que reivindicava direitos básicos.Com a inflação a 211% e uma dívida externa alta, junto a movimentos sociais, o Brasil de 80 articulava para decidir o futuro da nação. O primeiro núcleo traz o debate sobre redemocratização, liberdade e crimes ambientais. Atos públicos foram protagonizados por movimentos negros, indígenas, de mulheres e de punks. As obras apresentadas aqui incluem retratações sobre a guerrilha do Araguaia, primeira marcha da consciência negra, primeiro encontro dos povos indígenas do Xingu e a manifestação pelo impeachment do ex presidente Fernando Collor.

Miguel Chikaoka – I Encontro dos Povos Indígenas de Xingu- 1989

BEAT ACELERADO


“Coração ligado, beat acelerado” cantou a banda Metrô em 1984. A produção artística exposta nesse núcleo mostra o reflexo da mudança de comportamento e estilo de vida da época: uma ode às emoções, às paixões e aos prazeres da vida. Um convite para amar a si mesmo e, depois, ao outro. A vida íntima das celebridades aberta ao público nas capas de revistas. As noites nos bares e as rádios de dia dominados pela musicalidade dos diferentes estilos nacionais. Em um dos corredores, tem uma réplica de uma banca de jornal. Em letras garrafais e fotos marcantes, as revistas escancaravam fatos como o casamento da Lady Di e os feitos de Ayrton Senna. E as capas de vinis, os sucessos do momento: Cássia Eller, Titãs, RPM. Um chamado para sentir a batida e a efervescência da vida. A pintura também tem grande destaque, e as criações traduzem esses sentimentos com pinceladas cheias de muitas cores, texturas e formas.

Elza Lima – 1992

DIVERSÕES ELETRÔNICAS

“Você nunca imaginou, mas eu vi. No luminoso estava escrito diversões eletrônicas”. A música de Arrigo Barnabé dá o start do terceiro núcleo com uma letra que introduz as inovações eletrônicas que, romperam e foram símbolos da década, de forma muito natural. A TV cumpria seu papel de informar e entreter ao mesmo tempo de um jeito muito impactante. E novas mídias eletrônicas contribuíram para outras formas de comunicação. As câmeras registravam fatos, clipes e cenas do cotidiano que ficaram pra história. Mas não dava pra dar play, era REC. As imagens podiam ser apagadas da memória, mas não dos recordes.

Press release – Ricardo Basbaum e Alexandre Dacosta

PÁSSAROS NA GARGANTA


“Ânsia de que a vida seja mais cheia de vida. Árvores e ares, pássaros e parques…” trechos da música ‘Pássaros na Garganta’, de Tetê Espíndola, abrem a temática do quarto núcleo da exposição com enfoque a questões socioambientais. A cantora tem muita conexão com a fauna e flora brasileira; usando até mesmo, gravações de pássaros amazônicos em um dos discos. Aqui são apresentadas realizações de artistas que mostram um Brasil no papel de incapacitador e causador de seus próprios crimes ambientais : invasões de terras indígenas, desmatamento por causa da transamazônica, o assassinato de Chico Mendes, o acidente do césio 137

Rosa Gauditano – Encontro das Nações Indígenas no Xingu – 1989

O TEMPO NÃO PARA

Nenhum outro daria um retoque final tão bem quanto Cazuza. A vida e a morte são sempre objetos de estudo e fascínio em obras de poetas a músicos. E de reflexão nos pensamentos não ditos de pessoas comuns. Mas um dia chega o momento de encarar, seja a vida ou a morte, porque entendemos que somos limitados, mesmo tendo pressa. Porque o tempo não para, e Cazuza entendia isso, bem como os artistas representados aqui. Mas o que fazemos nesse espaço de tempo entre a vida e a morte? Nos expomos ou nos escondemos?

autorretrato do fotógrafo Samuel Costa, morto em decorrência da AIDS em 1987 – suas criações estão expostas na mostra

‘Fullgás’ já passou pelo CCBB do Rio de Janeiro e Brasília, fica até dia 4 de agosto em São Paulo, e vai para Belo Horizonte a partir de 27 do mesmo mês.

Curadores: Raphael Fonseca, Amanda Tavares, Tálisson Melo

Créditos das fotos: divulgação ccbb | equipe e site dos artistas

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