Pimenta Nerd

A sua dose certa de Nerdice

Você já leu um clássico?

A obra que narra o retorno de um engenhoso herói para casa, destrinchando uma extensa, conturbada e inesperada viagem, ao longo de sete anos, é a escolhida para a indicação de hoje. A Odisseia, que é um clássico da Literatura, da cultura grega, me fez experienciar um mundo fantástico, viajando para dentro de uma história escrita antes da Era Cristã – por isso, talvez impositora de muitas barreiras que distanciam uma associação de prazer literário a ela, colocando-a muito mais em um rótulo de construções rebuscadas, de difíceis compreensões –, e me envolver em cada aventura, apreciando, em muito, a figura de Penélope – esposa de Odisseu.

O texto atemporal de Homero, passa por diferentes etapas, como: a telemaquia, terra dos Feácios, os Lotófagos, o ciclope Polifemo, Circe, a descida ao Hades, as sereias, Cila e caribdes, a ilha de Calipso, chegada à Ítaca, o palácio e a vingança. Assim, atravessando as mais diversas provações, Ulisses, algumas vezes, parece não querer voltar para seu lar, mas em muitas outras, enfrenta a solidão interna em busca de um intuito (retornança, volta) que não pode ser esquecido. Regressar à Ítaca, depois de dez anos na guerra de Troia, reencontrando Penélope e seu filho Telêmaco, é o grande objetivo do personagem principal. Então, ele se realinha e aprende algo a cada aventura perpassada. Servindo, dessa maneira, como referência para muitos gregos, ao fazer da narrativa de vinte e quatro cantos/rapsódias, uma importante construção educacional para a sociedade da Grécia Antiga, e subsequentemente, um texto de fundamental visitação para essa e para as próximas gerações.

Tanto a cicatriz física do filho de Laerte, como as mentais provindas da guerra, são marcas que o preenchem a memória e impulsionam o sentimento de falta do conforto/segurança da vida que possuía. Esse passado só intensifica a busca pelo futuro que ele já tem como meta, como conquista de algo tão imaginado. No entanto, tal procura pelo reencontro de uma vida, acaba demorando muito tempo, fazendo com que Penélope acredite na morte do marido. Tendo isso e a forte pressão que ela sofria para se casar de novo em vista, a própria elabora um estratagema, no qual cederia ao casamento somente após o tecimento completo de um sudário para Laerte – pai de Odisseu –, porém, que desmanchava toda noite, longe da visão de seus pretendentes.

A telenovela brasileira “Chocolate com Pimenta”, exibida pela Rede Globo, em 2003, se inspira na obra indicada, já que, na trama, o personagem Miguel dá a ideia à Ana Francisca, de dizer ao seu marido, que só se “entregará” a ele, depois de cumprir uma promessa, na qual, ela bordará durante o dia e desmanchará a noite, se inspirando, dessa forma, no estratagema de Penélope. Logo, não esquecer de se permitir regressar à um clássico, usando de sua memória para lidar com as expressões de realidade, é algo importante para sociedade como um todo.

Além disso, a resiliência e a astúcia de Odisseu podem fornecer uma possível conexão com o leitor, esse, que pode passar a desejar tais adjetivos que caracterizam o personagem. Para além, a epopeia pode influenciar a leitura de Ilíada, também com autoria de Homero, que conta a história da guerra de Troia, que como narrado no livro de Odisseu, é de onde ele está voltando. Na verdade, pode incentivar o conhecimento de outros clássicos também, já que lidar com a leitura de palavras menos marcadas, não é mais tido como um obstáculo, mas como algo possível para quem lê o escolhido como a indicação de hoje.

Portanto, algo muda depois de se ler Odisseia. Muito provavelmente, Ulisses não tenha voltado o mesmo para o seu lar, mas os leitores também não saem os mesmos após a leitura. O atravessamento geracional que o poema realiza, se deve às riquezas contidas no próprio escrito, fazendo dele, um clássico. Sentir as mais variadas emoções nas aventuras do protagonista e admirar a inteligência, além da força de Penélope, foi o que me ocorreu e ocorrerá com o caro leitor convidado a ler, ou melhor, experimentar a obra.

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