Jorge Bodanzky e Orlando Senna traduziram sem esforço o turbulento Brasil de 70. Um país desigual e violento. Segundo o próprio Jorge, tudo continua, “talvez até pior” . O filme foi censurado pela ditadura militar e só foi exibido nacionalmente em 1981, quase 10 anos após a criação. Cinquenta anos se passam e ele retorna aos cinemas restaurado digitalmente em 4k.
A narrativa se concentra em Iracema, uma indígena de 15 anos que se torna uma prostituta em Belém, no Pará. E conhece Tião, madeireiro que cruza todo o Brasil. Iracema é o símbolo da prostituição infantil escancarada e normalizada pela sociedade. Tião é o homem branco que não tem regras ou ética, compra e vende de quem der mais lucro a ele e exalta o discurso nacionalista da ditadura “Brasil, ame-o ou deixe-o”. O mesmo acredita no progresso do país, mesmo que isso resulte em perdas.
Acompanhe o trailer remasterizado:
Não vemos uma Amazônia que queremos manter no imaginário – viçosa com uma força misteriosa, quase mística – mas estradas lamacentas, derrubadas de árvores e brasileiros trabalhando muito por quase nada. À época, garimpeiros e grileiros escravizavam pessoas e a vendiam com aval estatal. O país passava pelo período do chamado milagre econômico de 1968 quando as autoridades tinham como objetivo aumentar o PIB e exportações, mas que causou, posteriormente, o crescimento da dívida externa, mais desigualdade social e impactos ambientais com graves consequências até hoje. O então presidente Emilio Médici, deu início à construção da rodovia Transamazônica que iria interligar as regiões Norte e Nordeste, auxiliar na seca do Nordeste e integrar a Amazônia ao resto do país por meio de 8000 km de estrada. Um projeto megalomaníaco sem estudos de viabilidade econômica e ambiental que trouxe grandes impactos para comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas; também para a fauna e flora.
Em uma cena rápida, Jorge captura o verde da mata sendo engolido por um vermelho vivo. Uma imagem não roteirizada que representa o início das queimadas na Amazônia. Um fogo que parece que nunca foi apagado. Ali, um rastro de destruição foi deixado, como acompanhamos nas últimas décadas e, especialmente, nos últimos anos; nos biomas e cerrados através do poderio do homem. As Iracemas da vida continuam sendo exploradas por homens, um dos reflexos da pobreza e violência de gênero. Em um diálogo significativo, uma mulher oferece à Iracema a chance de trabalhar como costureira, porque ela é apenas uma criança e pode viver de outra forma. Ela, que já se autocondenou, se acha velha para aprender um ofício e recusa. Acredita que essa é sua sina.
A Gullane+ leva Iracema – uma Transa Amazônica para o cinema de 13 estados do Brasil a partir do dia 24 deste mês. Por trás da despretensão e naturalidade das filmagens, há um Brasil ditatorial que tirou terras de centenas de pessoas de maneira ilegal, devastou a biodiversidade e assassinou mais de 8000 indígenas segundo a Comissão Nacional da Verdade. Nele também vemos o Brasil de 2025 e a sina de um país que não protege os seus.
