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Crítica | Sons de Notre Dame

Uma releitura tocante de um clássico imortal

Estreando no Teatro Gazeta, Sons de Notre Dame é uma releitura teatral do clássico O Corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo. Com um elenco de peso e direção criativa, a peça aposta no emocional e na força interpretativa para recontar uma das histórias mais emblemáticas da literatura e do universo Disney. Mas será que funciona? Vamos descobrir.

Sinopse

Na mortificada Paris de 1482 havia vida. Catastrófica e putrefata, mas ainda assim, vida. A cidade abrigava as mais diversas formas de miséria humana: miseráveis de ouro e miseráveis de alma. A imponente Catedral de Notre-Dame testemunhou a dolorosa trajetória de Quasímodo, o sineiro caolho, corcunda, surdo e manco, nascido para ser bênção ou abominação.

O poder da simplicidade

Com um cenário minimalista que representa a catedral e vai se transformando conforme a narrativa exige, a montagem faz uso eficiente de elementos simbólicos e da imaginação do público. O resultado é um espetáculo que compensa a falta de grandes recursos com criatividade, sensibilidade e direção inspirada.

O uso inteligente do voice over (narração em off) ajuda a complementar a ambientação e reforça a atmosfera quase épica da obra, ao mesmo tempo que respeita os limites de uma produção independente, que claramente trabalha sem grandes patrocínios. O mesmo vale para os figurinos: simples, mas concebidos com carinho e cuidado, traduzindo bem a essência de cada personagem.

Um elenco de peso e entrega total

A peça conta com nomes fortes do teatro musical: Abner Debret como Quasímodo, Aline Serra como Esmeralda, Saulo Vasconcelos como Frollo, Ivan Parente como Clopin e Felipe Hideky como Capitão Phoebus. É um elenco comprometido que carrega a peça com talento e emoção.

Ivan Parente brilha como Clopin, com sua mistura de irreverência, humor e sagacidade. Suas participações, embora pontuais, sempre elevam a cena e trazem frescor à narrativa. Felipe Hideky, por sua vez, entrega um Phoebus mais complexo do que o habitual, com nuances que enriquecem o personagem e se distanciam da versão animada da Disney.

O trio central: um espetáculo à parte

Saulo Vasconcelos está simplesmente avassalador como Claude Frollo. Sua presença cênica impõe respeito, e o solo “Fogo do Inferno” é um dos momentos mais intensos da peça — um verdadeiro espetáculo vocal e dramático. Saulo reafirma, mais uma vez, por que é considerado um dos maiores nomes do teatro musical brasileiro.

Aline Serra está impecável como Esmeralda. Suas interpretações de “Salve os Proscritos” e do solo da prisão são carregadas de emoção e força. Ela entrega uma Esmeralda poderosa, vulnerável e profundamente humana, cuja presença domina o palco — especialmente nas cenas em que contracena com Frollo e Quasímodo.

Abner Debret encanta como Quasímodo. Com uma voz tocante e uma entrega corporal que traduz toda a dor e ternura do personagem, seu solo “Lá Fora” é um dos momentos mais belos e emocionantes da montagem. Abner carrega o peso do protagonista com verdade e profundidade.

Veredito

Sons de Notre Dame é uma peça que prova que o essencial está na alma da história e no talento de quem a conta. Com poucos recursos, mas muita paixão, o espetáculo emociona, surpreende e reverbera — mesmo após o fim da última cena.

Simples, mas nunca simplista, a peça toca fundo ao explorar temas como exclusão, intolerância e amor com uma força rara no teatro contemporâneo. Uma montagem que merece ser vista, celebrada e lembrada.

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