Após seis anos de espera, o diretor sul-coreano Bong Joon-ho está de volta! Com seu próximo filme, Mickey 17, após o sucesso de Parasita em 2019, ele faz sua primeira obra 100% hollywoodiana. Bong não tem medo de criticar e satirizar os problemas do mundo atual em sua nova ficção científica.
Na trama, segue Mickey 17, um “dispensável”, que é um funcionário descartável em uma expedição humana enviada para colonizar o mundo gelado de Niflheim. Depois que uma iteração morre, um novo corpo é regenerado com a maioria de suas memórias.
Quando ouvi que o próximo projeto de Bong Joon-ho seria um blockbuster falando em inglês, tive muitas expectativas para seu novo lançamento, baseado no livro Mickey7, de Edward Ashton. Ele tinha a tarefa de fazer esse filme o mais comercial possível, e aqui está nítido que ele teve total carta branca do estúdio para desenvolver suas ideias. Como em seus filmes anteriores, este tem bons personagens, fotografia e a história, que aqui, acho, pode ser um ponto polêmico. Bong Joon-ho não tem medo de satirizar uma figura tão problemática em sua obra, e a coragem em fazer o que ele fez aqui é notável.
O longa utiliza bons conceitos para desenvolver sua trama. Temos Mickey Barnes, interpretado por Robert Pattinson, que sai fugido da Terra após se endividar e acaba se alistando para um programa de colonização para povoar um novo planeta. (A Terra está em grande colapso no filme; a cena que mostra isso é muito bem feita, utilizando uma reportagem para mostrar de maneira simples e eficaz como a Terra está em péssimas condições.) Ele entra no programa para ser um “dispensável”. O roteiro do filme sabe muito bem trabalhar o existencialismo com o personagem título, que acaba morrendo ao decorrer da trama. O desenvolvimento é bem feito sobre o ser humano, com uma boa construção do arco do protagonista, fazendo com que consigamos nos importar com suas ações.
Robert Pattinson (Batman) se mostra cada vez mais versátil como ator. Sua atuação dupla de Mickeys está muito boa, sendo a do número 7 a que mais chama a atenção, seja pela sua voz, postura encurvada, timidez e insegurança, muitas vezes falando sussurrando por vergonha de estar ali. Essa versão difere muito da de número 8, muito mais agitada, beirando a loucura e arrogância. Cada uma tem suas nuances, e fica nítido que, apesar de serem a mesma pessoa, cada uma age de maneira diferente, tendo camadas distintas. Outro ponto alto é a atuação satírica de Mark Ruffalo (Pobres Criaturas), que faz uma crítica à política atual, mesquinha, covarde e cômica. O comandante Kenneth Marshall tem tudo para ser odiado, demonstrando uma imitação caricata através de suas pequenas atitudes, que o tornam desprezível desde o início.

Mickey 17/ Foto: Warner Bros
Naomi Ackie (Pisque Duas Vezes), Steven Yeun (Invencível) e Toni Collette (Hereditário) fazem ótimas adições ao elenco, mesmo com poucas participações na trama. Cada um tem seu momento certo, e há boas cenas de comédia, muito bem encaixadas no roteiro.
Mesmo com alguns momentos de espaço claustrofóbico, o cenário da nave e do planeta Niflheim tem muita vida, transmitindo um sentimento que, em alguns momentos, faz referência ao ambiente de Expresso do Amanhã (2014), com um clima sujo e industrial. O design de produção é muito bom, criando um mundo próprio dentro daquele pequeno espaço. Joon-ho sabe bem como mostrar esses momentos. Os figurinos são bem feitos, e as roupas usadas por Toni Collette são um espetáculo à parte. Cada detalhe é importante para contar essa história, e o diretor sabe como mostrar isso na tela.
Antes do filme estrear, cheguei a ler o livro no qual o filme é baseado, então já imaginava que não seria uma adaptação totalmente fiel. Bong Joon-ho pega alguns conceitos do livro e os desenvolve de outra forma. Acho que essas mudanças podem afastar alguns leitores do livro, pois algumas passagens estão completamente diferentes na versão cinematográfica. Uma delas, em especial, não está no corte final do filme: no livro, envolve a primeira pessoa a se multiplicar, dominando um planeta inteiro e começando uma guerra com outro planeta. No filme, essa ideia é resumida a um “gênio assassino de mendigo”.
No entanto, muitas das mudanças feitas por Bong Joon-ho na adaptação são boas. Ele expande conceitos e dá mais destaque aos rastejadores no filme. Há uma boa cena em que Mickey conversa com a rainha rastejadora, demonstrando como esses seres podem ser humanos, algo que não está no livro.
Mickey 17 é uma nova entrada de Bong Joon-ho em Hollywood. Não é o seu melhor filme, especialmente se comparado a filmes em línguas não inglesas. O longa supera Expresso do Amanhã e Okja, mas acho que é o mais fraco de sua carreira. Com uma jornada bem pessoal sobre a humanidade e o livre arbítrio, ele se apresenta como um nome forte nesta geração de cineastas, com filmes que merecem ser discutidos. Então, vá ao cinema e prestigie esse filme, além de ser bom, é uma ótima oportunidade para debater o que você achou.
O longa estreia nos cinemas nacionais em 6 de março.
