Séries como Euphoria, Bridgerton e Stranger Things possuem uma coisa em comum: fãs esperam anos por novas temporadas. Mas quais os motivos para isso acontecer?
O mercado de séries está mudando drasticamente nos últimos anos. Atualmente, o formato de temporadas extremamente curtas (popularizado pela Netflix, pioneira dos streamings) é o que impera. Porém cada vez mais podemos sentir os efeitos dessas mudanças, tanto para os profissionais da área (cineastas, produtores, atores, etc) quanto para nós, espectadores.
De produções com temporadas anuais com cerca de 20 episódios cada, passamos ao modelo de temporadas que não passam de 10 episódios, em sua maioria e que, além disso, sofrem um hiato muito grande entre uma temporada e outra.
Problemas para conciliar agenda:
Embora permita que atores participem de outros projetos entre uma temporada e outra, séries com hiatos longos vivem com a ameaça quase constante de cancelamento por causa da agenda dos atores. Uma vez que começam a trabalhar em projetos paralelos conforme sua projeção aumenta na indústria, a produção tem cada vez mais dificuldade de conciliar a agenda de todo o elenco, fazendo com que estas séries sejam constantemente adiadas (como a terceira temporada de Euphoria).
A cultura de maratonar séries de uma vez só, o chamado “binge-watching“, vêm prejudicando muito um fator excelente que ajuda séries a evitarem o cancelamento (inserir link da matéria sobre séries canceladas): o buzz.
A vida útil de uma parte considerável dessas séries é curtíssima e, no período em que estão em hiato, são completamente esquecidas pela audiência.
Todos querem ser Game Of Thrones…

Quem não se lembra do acontecimento que foi Game Of Thrones? Todo domingo à noite a timeline do Twitter só falava de GOT, e foi assim que a série conseguiu ainda mais audiência: estava em todo lugar e ninguém queria ficar de fora. Como os episódios eram semanais, quem caía de paraquedas na série tinha tempo de ir assistindo as temporadas anteriores para começar a acompanhar também.
Além disso, episódios semanais dão a oportunidade de aumentar a quantidade de tempo em que a série é assunto. Além de atrair mais audiência, comprova em números a relevância da série e ela corre menos perigo de ser cancelada.
… mas não querem seguir o modelo de Game Of Thrones.
Isso porque mesmo séries que fazem sucesso podem sofrer com a demora de novas temporadas, já que as pessoas podem esquecer da série, depois de tanto tempo.
E na tentativa de gerar um pouco desse “buzz” para aumentar a vida útil das séries curtas, o que as empresas como Netflix fazem? Dividem temporadas já curtas em duas partes, com lançamentos um pouco distantes. Foi o caso da terceira temporada de Bridgerton, de Stranger Things e é o caso da quarta temporada de Emily em Paris.
Mas então, se muitas séries não chegam a ir para a frente e são canceladas pela falta de buzz, por que as empresas continuam fazendo?
Porque é lucrativo.
Não existe apenas um fator para a mudança, mas a lucratividade é indiscutivelmente um dos grandes motivos. No caso da separação de temporada em duas, por exemplo, muitas vezes o contrato é negociado para apenas uma temporada, fazendo com que a rede não tenha que pagar aos atores quantias entre as duas metades. A separação de temporadas também possibilita a muitas produções serem elegíveis e terem mais chances de ganhar premiações.
E após a pandemia e a greve de atores e roteiristas em 2023, a SAG-AFTRA (associação que representa atores, artistas do rádio, jornalistas, escritores e dubladores) definiu espaços mais longos entre cada temporada de séries para garantir os direitos de atores e membros da equipe em produções em streaming, já que a AMPTP (associação que representa os estúdios de cinema e televisão) desde a greve de 2008 argumenta que os escritores não deveriam receber nenhum lucro residual neste formato.
Na greve mais recente, a SAG-AFTRA buscou garantir o aumento desse lucro residual, que é muito menor que os lucros obtidos em redes de televisão e tv a cabo.
As séries cada vez mais curtas

Por volta de 2013, a Netflix começou a se arriscar criando seus projetos originais, trazendo à vida fenômenos como House Of Cards e Orange Is The New Black, que já estrearam contendo apenas 13 episódios cada. Anteriormente, canais de tv a cabo como a HBO já produziam alguns títulos com menos episódios, mas foi a Netflix quem popularizou o formato – iniciando o movimento que o tornaria a norma.
Com a ascensão do streaming, a “lei dos 100 episódios” se tornou irrelevante para garantir a qualificação da produção para reprises sindicalizadas por outros canais ou empresas, de forma que as séries não precisavam mais fazer mais de 20 episódios por temporada para garantir valores de venda maiores.
As reprises de séries são extremamente lucrativas, mesmo anos depois de as gravações terem encerrado. Um grande exemplo é Friends, que 30 anos após a estreia continua tendo uma base de fãs apaixonada e enorme.
Foi a promessa de lucros através da sindicalização que salvou Lucifer do cancelamento, por exemplo. A Netflix produziu 36 episódios após a Fox ter cancelado a produção, aos 57 episódios, tornando-a elegível para a a sindicalização.
Séries mais curtas são menos arriscadas
Séries precisam de muito investimento para irem ao ar, e todo este investimento é jogado no lixo se a produção não conquistar audiência. No caso dos streamings, não há muitos recursos para “segundas chances” até que a série emplaque: ou você é um fenômeno estrondoso de cara, ou provavelmente será cancelado após uma dúzia de episódios – não importa o quão boa a história seja.

Para algumas séries, nem mesmo algum sucesso, uma base de fãs e campanhas de renovação nas redes sociais são o suficiente, como os casos de Anne With An E (que teve uma campanha durante meses no Twitter para evitar o cancelamento), I’m Not Okay With This e Julie And The Phantoms (que tinha tudo para se tornar uma espécie de Rebelde desta geração, com planos de turnê cancelados por causa da pandemia). Com exceção de Anne With An E, que chegou à terceira temporada, as outras duas terminaram com ganchos ótimos, muito espaço para continuação, uma base de fãs apaixonada e um enredo que nunca seria finalizado.
Mas nos casos em que a série realmente não faz muito barulho, as empresas conseguem cancelar o projeto e evitar que mais gastos sejam feitos sem retorno, fazendo com que elas tenham recursos para investir em projetos com mais audiência.
Vantagens e desvantagens:
Se por um lado as séries mais curtas oferecem a promessa de produções com mais investimento, possibilidade de efeitos especiais melhores; mais tempo para os escritores e narrativas mais direto ao ponto, sem tanta “barriga” de episódios, por outro lado, algumas narrativas sofrem com pouco tempo para o enredo e personagens serem desenvolvidos.
Uma reclamação comum do público de Arcane sobre a segunda temporada, nas redes sociais, foi justamente essa: muita história acontecendo em poucos episódios, muita coisa que podia ser bem desenvolvida não indo além da superfície. Um universo rico e com muitas oportunidades desperdiçado.
Alguns espectadores disseram que a sensação foi como se “duas temporadas inteiras fossem condensadas em uma só” e não seria surpresa esse palpite estar certo.
É através dessa régua que séries bem interessantes ficam para sempre com final aberto e outras, que mal tem enredo para uma única temporada (como Elite e Emily em Paris), ganham várias (mesmo que muita gente não entenda como elas foram renovadas tantas vezes).
É o clássico “fale bem ou fale mal, mas fale de mim“.
No fim, não existe um formato bom ou ruim. Existem séries que se desenvolvem muito bem em poucos episódios, como Stranger Things, que explora seu universo e desenvolve seus personagens em cerca de 8-10 episódios. Mas há outras que não se adaptam bem, e sofrem com enredos rasos e cancelamentos injustos por causa dele.
A problemática é que, com a diminuição de redes de televisão, o aumento massivo de redes de streaming e as mudanças no consumo de produções do gênero, o único formato que streamings e redes de tv querem produzir, em sua maioria, é o de 8-13 episódios. Com exceção de Abbot Elementary, que mantém seu formato de cerca de 20 episódios (muito bem aproveitados).
A falta de liberdade criativa pode limitar a variedade de produções criadas daqui para a frente, já que os escritores e roteiristas terão que priorizar criar histórias que possam ser contadas em temporadas curtas, se quiserem que elas sejam finalizadas.
Fontes:
How Stuff Works
Deadline
The Hollywood Reporter
Screenrant
Acting Magazine
NPR
